quinta-feira, 21 de maio de 2015

Parabéns ao meu amor


Parabéns ao meu amor
Silvia Britto

O tempo passa.
E com ele vêm os cabelos brancos, as rugas, as lembranças e as milhares de pequenas histórias que formam a imensa colcha de retalhos que somos nós.
Em dois dias você completará 60 anos de vida. Como não poderia deixar de ser, ainda mais se tratando de você, essa vida está repleta de lindas histórias, alegres e tristes, emocionantes e cômicas, mas todas trazendo a sua marca. Todas marcadas pela sua intensidade, emotividade, determinação e inteligência.
Você foi o filho que buscava caruru no mato para ajudar na mesa humilde de outrora. Que saía pelas ruas e não conhecia fronteiras montado em sua bicicleta. Levava duros castigos do pai, com quem aprendia, sem sentir, a ser um homem de verdade. Sentava à mesa na excitação antecipada de um delicioso, reconfortante e inesquecível ensopadinho de berinjela. Um filho que seguiu seu destino, guiado pelas mãos de seus pais, de forma íntegra e com muita coragem.
Também foi, e ainda é, o pai que não mede esforços, lágrimas, dores e gritos para mostrar o melhor caminho aos seus filhos. Não é fácil a tarefa de ser justo e amoroso ao mesmo tempo. Muitas vezes, isso é encarado como injustiça no momento dos conflitos e confrontos.  Contudo, o reconhecimento pelo amor incondicional, aos filhos dedicado, sempre encontra o seu caminho de volta.
E esse retorno do amor vem na forma de netos. Com os netos, a certeza da sua continuação e a grande alegria de receber em seus braços aqueles que representam a imensa gratidão dos seus filhos pelo homem e pai que você sempre foi. E você baba. E você chora. E você acalanta os seus pequeninos trazendo-os ao peito, fazendo-lhes cócegas para extrair as gostosas risadas e para escutar as doces palavras: “- Para, VOVÔ!”. E, ao contrário dos filhos, os pequenos não se poupam do grande prazer de falar, olhando em seus olhos, o quanto te amam. Mas você, como homem inteligente que é, percebe o coro de amor e gratidão sendo engrossado pelas lágrimas contidas nos olhos de seus filhos quando presenciam esse momento.
Dos amigos, só escuto elogios. Você tem um magnetismo pessoal tão grande que é impossível passar por algum lugar sem que o ambiente todo ilumine-se ao seu redor. E de todos os cantos, ruas e lugares por onde andamos, pipocam pessoas para enriquecer as histórias da sua vida. Todos, sem exceção, te chamam de irmão. E tudo que você sempre fez para ser amado dessa forma, foi ser você mesmo. Essa explosão de alegria, otimismo e generosidade, inerentes aos grandes homens.
E eu, chegando de repente nessa intensidade de vida que é, e sempre será, você, sinto-me honrada de ser tomada em seus braços no melhor abraço que já conheci neste mundo. Um abraço inesquecível, testemunhado também por todos que tiveram o privilégio de esbarrar com você nesta vida.
 E foi assim que te encontrei... De braços abertos para receber todo o amor que eu tenho para lhe dar e que você muito merece receber. Tenho o imenso privilégio de acordar entrelaçada a esse homem maravilhoso e de ser saudada, todos os dias com o som da sua linda voz, sussurrando aos meus ouvidos: “-Bom dia, meu amor... Eu te amo”.
Você é o filho do qual eu me orgulharia, o pai que eu sempre quis ter, o avô que me faz gargalhar com a sua inesgotável reserva de piadas e brincadeiras e o amigo que faz com que eu sinta orgulho de ser quem sou e de tê-lo ao meu lado.
Porém, acima de tudo isso, você é o amor que sempre busquei e que já estava prestes a desistir de encontrar. Quis o destino que você ainda pudesse ter a grande alegria de ouvir um “eu te amo”, sincero e apaixonado, de uma mulher que não mede, e jamais medirá, esforços para te fazer feliz. 
Eu te amo, meu Ronaldo. Tenha a certeza de que agora, até o fim da sua estrada, você sempre me terá ao seu lado cuidando de você e tentando retribuir ao grande cuidador que você foi durante toda a sua vida.  Dê-me sua mão e vamos juntos, pela estrada afora, fazendo um enorme barulho e soltando os fogos do nosso amor pelas praias, bares, sambas e partidas de futebol  do nosso amado Glorioso.
Parabéns, meu grande amor! Pela vida linda que você é, pelo homem que você carrega no seu peito, pela criança que escapa pelo seu sorriso e pelo amor que você transborda no seu coração. 
Termino com um clichê, que como todo bom clichê, transborda de tanta verdade:

- O aniversário é seu, mas o presente é nosso!

Eu te amo. Para sempre e mais um ano!

Sua,

Silvia.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

A idade da justiça


A idade da justiça
Silvia Britto

Não sou especialista em segurança pública, tampouco socióloga. Porém, muito tem me irritado esse discurso sócio-paternalista contra a redução da idade penal para os nossos doces marginais.
Muitos dizem acreditar que seja apenas a ação oportunista de alguns políticos para dar uma resposta à população com relação à sua inércia e incompetência de coibir a violência que assola nosso Brasil varonil. Concordo com eles, até certo ponto. Mas, neste caso, funcionaria, de fato, como uma maneira  mais fácil e direta de tentar diminuir a impunidade que reina sobre as nossas cabeças.
Na minha simplória opinião, penso que, se alguém é capaz de articular um crime, manusear uma arma, praticar um roubo, também é perfeitamente capaz de ser punido por isso. Sem essa de que eles são vítimas de uma sociedade desigual! E os que, vivendo em situações de até maior privação, não se corrompem? Devem esses últimos entender que estão bancando os otários e que o crime, na verdade, compensa?
Fazendo uma analogia, devem os pais punir as deficiências, desobediência e agressividade dos filhos ou devem, simplesmente, assumir a culpa e aceitar que foram eles mesmos os responsáveis pela má conduta de sua cria e deixá-los livres para reincidir? Afinal, o "poder superior" está aqui para dar um rumo certo aos nossos futuros cidadãos, ou para ser conivente com suas más condutas? Palmadas bem dadas, só não deu quem teve a sorte de ter anjos como filhos, e não capetinhas levados pedindo limites, como foi o meu caso.
Do jeito que está, os jovens contraventores têm cada vez mais certeza de que o crime precoce é uma grande saída para que façam sua breve aposentadoria aos 18 anos. Não há dúvida de que é preciso investimento em educação, em saúde e na integração familiar. Mas uma coisa não exclui a outra. Não é permitindo que cada quadrilha tenha seu "menor de estimação", para assumir seus crimes, que vamos resolver o caos generalizado em que vivemos. Cada problema, com a sua solução. Se, um dia, conseguirmos fazer nosso dever de casa e tornar as oportunidades, de fato, iguais a todos, como mágica, veremos que o número de menores infratores também diminuirá.
Sei que o sistema carcerário já está corrompido e deve ser reformulado urgentemente. Mas não é deixando futuros criminosos à solta que daremos fim à violência. Que tal, pelo menos começarmos a pensar em sistemas direcionados à  reclusão desses menores, obrigando-os a estudar e oferecendo ensino de qualidade dentro de prisões especializadas em recebê-los? Se não tiveram a sorte de ter pais que conseguissem lidar com suas deficiências de caráter, que o Estado assuma esse papel.
Portanto, podem estribuchar, soltar espuma pela boca, chamar-me de insensível e utópica mas sou ainda mais radical do que as propostas de lei. Acho que não deveria haver idade para a punição. Crime é crime em qualquer idade. Se uma criança de 7 anos mata seu amigo por vingança, é claro que é uma pessoa inapta para viver em sociedade.Se o que acham é que devemos passar as mãos sobre as cabeças dos doces criminosos e estupradores mirins, realmente, acho que estou no mundo errado.
Parem que eu quero descer!


domingo, 5 de abril de 2015

A coelhinha branca

A coelhinha branca
Silvia Britto

Certa feita, ainda na escola Rosa Castro, em São Luis do Maranhão, lembro-me de ter aprendido uma das melhores lições que a vida poderia me dar e que sempre trago comigo.
A ocasião era a Páscoa. Festa com todos vestidos de lindos coelhinhos! A turma estava alvoroçada diante do espetáculo que se aproximava.
Chegara a hora da escolha do "elenco" de coelhinhos. Haveria o azul, o amarelo e o vermelho também. Por conta dos meus sempre brilhantes olhos azuis esverdeados, fui escolhida para abrir o espetáculo, sendo o coelhinho azul. Seria a primeira a entrar em cena, seguida do amarelo e do vermelho também. Após essa abertura do "show" entraria o bando de coelhinhos brancos, com faces perdidas na multidão de "coadjuvantes".
Qual não era o meu orgulho! Sentia-me a "estrela" da trupe!
Porém, meu palco durou pouco. A neta da diretora, preterida ao papel "colorido" e destinada a ser apenas mais um dos coelhinhos brancos, abriu um berreiro de dar dó. Pelos pistolões da vida, acabou sobrando para mim, a troca de papéis. Perdi minhas lindas orelhas azuis. Fui de diva a figurante em questão de segundos. Lembro-me de não ter me dado por rogada e fingi estar tudo bem. Por trás, chorei até ficar com os olhos vermelhos, tais quais os dos coelhinhos.
O choro durou uma tarde, talvez uma noite.
Diante do inevitável, resolvi que iria fazer meu papel de coelhinha branca da melhor forma possível. Queria me divertir também! E assim fiz. Pulei mais alto que todos, empenhei-me nas barrigadas e me acabei de verdade nas cambalhotas, trazendo gargalhadas a todos os presentes. Acreditem, tudo que fiz foi abraçar meu "papel" com seriedade e empenho, independente do grau de importância a ele atribuído.
Felizmente, essa minha veia exagerada e palhaça, sempre me traiu, mesmo quando tentava passar despercebida. Ao fim do espetáculo, todos queriam saber quem era a coelhinha de lindos olhos azuis, engraçada e bundudinha que a todos encantara com sua entrega ao papel que lhe fora confiado.
Lição tirada: Não importa a missão que lhe for destinada. Faça-a com entrega, alegria e vontade, que até as "árvores" do cenário podem ter o seu valor reconhecido. Deixem a vida lhes levar! Mas sempre com alegria e nunca perdendo o rebolado. Eu nunca perdi o meu, o famoso "mais que um poema"!
Boa Páscoa!

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Celebrar o quê?

Celebrar o quê?
Silvia Britto

Sem brincadeira...
Não creio em religiões, mas, se eu fosse Jesus, estaria muito danada da vida!
As duas festas maiores do Cristianismo, seu nascimento e morte, são mais celebradas por causa de um velhinho com um saco cheio(?) de presentes e por um coelho que põe ovos(?) de chocolate?
Onde está o sentido dessa fé? Comer bacalhau na sexta-feira é suficiente para render-se homenagem a quem morreu por toda uma legião de seguidores?
De qualquer maneira, desejo uma boa Páscoa a todos.
Aproveito para desejar Chag Sameach aos meus amigos judeus que comemoram o seu Pessach.
Celebra a libertação dos escravos hebreus do domínio do faraó egipcio. A mais linda história de libertação que conheço. Liberdade essa, conquistada a duras penas, muito sofrimento, dez pragas e 40 anos vagando pelo deserto hostil a caminho da Terra Prometida. Não esquecendo que Jesus, como um bom judeu que era, também celebrava essa libertação e foi traído exatamente no seder (jantar) de Pessach, que, a partir daí, ficou conhecido, pelos cristãos, como a Santa Ceia.
Seja qual for a religião ou a história, essa é uma época de celebração da vida, de superação, de realização do que parece impossível. A fé está em cada um de nós, na nossa força e determinação de domarmos nossos fantasmas e passarmos por cima das nossas dificuldades em busca da liberdade. E liberdade sempre me emociona.
Que todos tenhamos fé e acreditemos no nosso êxodo rumo à felicidade, na morte das nossas limitações e na ressurreição da nossa boa vontade de fazer um mundo melhor.
Amém!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Nascer e morrer


Nascer e morrer
Silvia Britto

Mais uma dessas madrugadas...
Dizem que as madrugadas não foram feita para descansar e sim para pensar.
Verdade.
Mais uma vez estou eu aqui, falando sozinha, sem encontrar eco para as minhas palavras.
Falo sozinha. Para as paredes. Mas se quiser ser um pouquinho mais romântica, falo para a Lua, linda lá fora, ainda tentando dar-me um pouquinho da sua atenção.
De que adianta falar se as palavras não encontram um porto seguro onde repousar?
De repente, dei-me conta de que nascemos sozinhos e é exatamente assim que morreremos.
Sós nas nossas verdades, inalcançáveis aos que não nos querem ouvir por estarem embriagados por suas próprias verdades. Por aqueles que preferem o acalanto do sono às angústias e dúvidas que a realidade tem a lhes oferecer.
Realidade. Nada mais é do que um pesadelo que faz parte da vida dos que não querem ou não podem amar. Dos que não conseguem agarrar-se à linda viagem de sonhos que é a vida.
Nasci com esse dom, de saber amar. Com isso, sofro, sou mal interpretada e mal acreditada.
Nascemos sozinhos, vivemos nossas verdades sozinhos e, raramente, encontramos alguém que nos consiga ouvir.
A vida, quase que integralmente, segue fácil e tranquila quando optamos por viver apenas para nós mesmos.
Não é fácil e fico aqui, nesta madrugada, a pensar. Por que tudo tem que ser tão complicado? Por que a tendência universal é que sejamos tomados de acordo com a vivência de outrem, que insistem em não dialogar conosco e se mantém fiéis e reféns das suas crenças?
Como pode o mundo evoluir, o amor crescer e a vida tornar-se fácil e tranquila quando dependemos tanto da credulidade alheia?
Estou cansada de falar sem ser ouvida, de ver minhas belas palavras desacreditadas na sua veracidade.
Quisera fosse diferente. Mas qual! Vejo-me constantemente questionada na verdade de ser quem sou.
Que interesse teria eu de mentir? Já passei da metade do meu túnel. Já estou com idade suficiente para colher frutos e não para semear o meu futuro.
Por isso passei tantos anos descrente do destino. Não é dito que aqui se faz, aqui se paga?
Nada do que fiz foi com o intuito de cobrar. Mas questiono o motivo de nunca ser recompensada pelo imenso trabalho de ser quem sou.
Pelo jeito, é assim que tem que ser... Nascer, viver e morrer sozinhos, sem rascunho e sem borracha.

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sábado, 20 de dezembro de 2014

Amar demais


Amar demais
Silvia Britto

Já fui acusada, algumas vezes, de ser uma mulher que ama demais. Acusada, pois o amor, neste caso, é considerado uma doença. Sinto desapontar mas discordo veementemente. Amor nunca foi e nunca será doença. Não deve ser confundido com obsessão, essa sim, destruidora vil e egoísta dos sonhos de outrem.
Todos já tivemos, em algum grau, nosso coração machucado, dilacerado. Desse mal, ninguém escapa. Mas isso deve tornar-se um ensinamento, para que possamos entender que o erro não está em doar-se e sim na atitude do outro em não saber, ou não querer, receber amor.
Fico pensando o que passa pela cabeça de algumas pessoas que têm medo de amar. Temos um só mundo pela frente e olhem para ele! Lindo! Ensolarado! Cheio de música, sol e mar! Não há tempo para se deixar de amar! O mundo é lindo mas o tempo é curto e a vida não para! A vida lá fora nos chama e convida a brincar.
Um coração que ama de verdade é igual a um guerreiro sem escudo: sabe que irá machucar-se mas não desiste de lutar. Amar não é para os fracos. Torna-nos seres vulneráveis pois abre nosso peito e deixa que cheguem, lá dentro, pessoas que podem fazer uma imensa bagunça na nossa vida e nos nossos sentimentos. Amar nos deixa exaustos, pois draga todas as nossas energias e causa dor real, física, em nosso coração. Mas quando a dor passa e nos descobrimos amados de volta, a recompensa é a luz de todas as luzes, é o que vai encher nosso corpo de energia para seguirmos felizes o resto da nossa estrada.
Também sou muito acusada de ser chorona. Pois eu digo que há algo de sagrado nas lágrimas. Descobri, há pouco, por exemplo, que um dos orixás mais lindos da Umbanda, Mamãe Oxum, chega sempre chorando, com a emoção à flor da pele. Não concordo que lágrimas são um sinal de fraqueza. São um sinal de poder, de força. Falam muito mais do que mil palavras. São mensagens do que as palavras não podem dizer, tanto para a felicidade quanto para a tristeza.
Também nunca vou tentar esquecer meu grande amor. Seria como tentar lembrar de alguém que eu nunca conheci: impossível! Não quero esquecer o meu anjo de prata.
Amar demais, repito, não é doença, é um dom. Infelizmente, traz consigo reações adversas que traduzem-se em solidão e tristeza por percebermos que muito poucos sabem amar de verdade. E acabamos por ter nossas energias sugadas, somos mal interpretados, manipulados e descartados quando as pessoas percebem que amar não é um jogo e sim um estilo de vida que requer cumplicidade, coragem e verdade. Pé que dá fruta é o que mais leva pedrada, e eu estou muito machucada pelas pedradas que andei levando. Mas meu tronco não vai apodrecer.
Concluindo, digo aos que me acusam que é verdade, amo demais! Ainda bem que tenho esse dom e essa capacidade de deixar pequenas coisas fazerem-me feliz. Que faço do beijo um ato de amor. Que faço do cheiro do meu amor o oxigênio que me faz sonhar. Que faço do gosto da minha paixão um instrumento que me faz  gozar. Sei que meu futuro, provavelmente, é acabar só, mas, felizmente, é assim que eu sei viver.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Da Urca ao Engenho de Dentro (com escala em Deodoro)


Da Urca ao Engenho de Dentro
         (com escala em Deodoro)
Silvia Britto

(Aconteceu há 2 anos)

Tudo começou com um pedido que parecia a coisa mais simples de ser atendido.

Minha mãe ligou me pedindo que fosse com ela ao Norte Shopping e que a ajudasse a comprar um vestido para usar no Natal. Vá lá que fazer compras no shopping na época do Natal não é exatamente o que eu chamo de simples diversão. Mas, prática como sou e imbuída do famoso espírito natalino encontrei logo uma solução. Estava certo. Iríamos às dez horas da manhã, assim que o shopping abrisse. Encontraríamos as lojas vazias.

No dia combinado, saí da minha casa na Urca e em poucos minutos, lá estava eu, britanicamente pontual, na Central do Brasil para pegar o direto para Japeri, coisa que já fiz centenas de vezes. É muito simples. Apenas uma estação da Central até o Engenho de Dentro. Porém, ouvi um aviso vindo de uma dessas vozes indecifráveis de além dos autos-falantes e achei ter entendido que esse trem pegaria uma via paralela e só pararia em Deodoro. Na dúvida, melhor perguntar a algum funcionário. Localizei um, devidamente uniformizado, que deveria saber do que falava. Ele fez umas perguntas, com cara de autoridade, através do seu radinho falante e disse-me, com toda segurança, que não havia problema algum. O trem seguiria seu trajeto normal. Infelizmente, descobri em questão de poucos minutos que informar não é o forte dos funcionários da SuperVia.

O trem seguiu, lotado como sempre, por um trilho cruzado em direção à Deodoro. Parou algumas vezes no meio do caminho à estação por motivos técnicos. Havia uma "composição avariada" à nossa frente e pediam-nos que, por favor, cooperássemos e esperássemos a liberação da via. Onde mais eles achavam que iríamos se resolvêssemos não obedecer? E ali ficamos por longos minutos.

Eu pingava de suor. Havia escolhido o traje errado para aquela empreitada. Normalmente, quando vou pegar o trem para algum lugar, deixo o modelito Garota-Dourada-Zona-Sul em casa e visto o Musa-Comportada-da-Lage. Que fique claríssimo aqui! Não vai aí nenhum preconceito ao subúrbio. Tenho lembranças maravilhosas de churrascos inesquecíveis nos quintais de Nova Iguaçu e Xerém. Sempre regados ao som de Alcione e de rodas de samba improvisadas para lá de profissionais. Esgoelava-me cantando Noel e Cartola com a rapaziada local. Quero apenas ressaltar que, como toda mulher que se preza, tenho um modelito  adequado para cada tipo de acontecimento.

Finalmente chegamos a Deodoro. A estação estava um buxixo só. Era como se alguém houvesse retirado a tampa de um recipiente que continha um bolo infestado de formigas. As formigas foram pegas no flagra enquanto levavam suas vidinhas normais de comedoras de açúcar. E instalou-se a confusão. Era gente indo, vindo, subindo, descendo. Parecíamos um monte de piões desnorteados girando com caras de interrogação. Dali não se vinha nem se ia a lugar algum. Pelo menos, não de trem! Interdição Geral! E num desses rodopios, fui lançada para fora da estação. O cenário não era mais tranquilizador. Tinha que achar meu caminho de volta a algum lugar.

Minha vontade era de rir daquele caos humano do qual eu fazia parte. Mais uma dessas coisas que só acontecem conosco. As setas nas placas apontavam  para direções opostas umas às outras. Ao mesmo tempo, apontavam para lugar nenhum. Pelo menos nenhum que fizesse algum sentido. Comecei a lê-las e tive a sensação de estar num concurso de Garota da Laje 2012. Eu, que só estava acostumada ao circuito Tim Maia "Do Leme ao Pontal", de repente vi desfilando na minha frente faixas de Madureira, Vicente de Carvalho, Pavuna, Marechal Hermes, Bangu, Campo Grande, Realengo, Vila Valqueire, Nilópolis, Anchieta... 

Oops!! Anchieta! Há pouquíssimo tempo descobri ter sido o bairro onde uma pessoa muito querida havia passado sua infância. Imediatamente liguei para ele. Mais para dividir o momento do que para pedir ajuda. Eu já não conseguia parar de rir com aquela situação inusitada. Ele nem deve ter estranhado o meu riso descabido. Já sabe que sou assim mesmo, sem noção. Deparei-me com uma placa onde se lia: Batalhão Logístico. Quá quá quá quá!! Logística?! Onde?? Ô vida irônica... Mas meu interlocutor, prontamente identificou: "Você está na Vila Militar!" Fato! Êba! Não estava mais perdida. Mas e agora? Como sair dali? Logo identifiquei um rapaz com roupa de exército. Ao lado dele, uma placa onde estava escrito: "Exército Brasileiro. Braço forte. Mão amiga". Era ali mesmo que eu iria pedir uma orientação. Antes de desligar o telefone fui ainda sabiamente aconselhada a não rir demais quando falasse com o rapaz. Verdade! Tinha que me controlar. Até mesmo para que não parecesse desacato à autoridade. Vai quê! Compenetrei-me ao máximo para fazer cara de perdida e caminhei ao encontro do rapaz que já prestava atenção em mim há algum tempo e deve ter pensado: "Putz! A louca risonha vem em minha direção!". Consegui fazer com que ele confiasse em mim e me orientasse. O número mágico do ônibus era 689. Agradeci e fui para o ponto.

O ponto estava lotado. Os ônibus não queriam parar, pois já não havia mais como acomodar passageiros. E como o Diabinho dos Contratempos sempre anda de mãos dadas com sua inseparável companheira, a Maré de Azar, começou a me dar uma vontade enorme de fazer xixi. Eu já tentara ignorá-la ainda no trem. Mas ela resolveu não se deixar subjugar. Pronto! Não podia mais rir. Era só o que faltava! E quanto mais eu me contraía, mais eu tinha vontade de rir da comicidade da situação. 

Comecei a recorrer a artifícios psicológicos com a intenção de distrair minha mente. Decidi brincar de ler o destino dos ônibus que passavam. Eis que passa um que ia para Pau da Fome. Onde? Quá quá qu... Segura, segura! Seria perto da Boca do Mato? Quá quá qu... Concentra, concentra! Lembrei-me de uma cantiga de rodas. Subúrbio sempre me inspira a brincar de roda. Havia uma cantiguinha que eu amava de paixão, Teresinha de Jesus. No final, um versinho dizia: "da laranja quero um gomo, do limão quero um pedaço, da morena mais bonita, quero um beijo e um abraço". Então! Eu não era uma morena bonita? Era só pegar a laranja e o limão da cantiga e fazer um suco.
Laranja e limão.Pura vitamina C. "C" de Carioca de Coração. E assim entrei no ônibus. Uma maranhense com alma de carioca seguindo a trilha da carioquice do subúrbio.

Passava pelos templos e dizia amém. 
Madureira: Portela! Amém! 
Padre Miguel: Mocidade Independente! Amém. 
Quintino: Zico! Amém.

E assim segui, respirando e me nutrindo daquela cultura da simplicidade que tanto me encanta. Ela é parte de mim. Infelizmente não tenho mais como frequentar essas bandas. Não tenho passaporte. Não tenho mais quem me convide para ir ao infinito e além de Xerém. Meu limite é o Engenho de Dentro.

De repente, numa curva em que o motorista do ônibus quase me perdeu pela janela aberta, vi aparecer majestoso o templo atual das tardes cariocas de domingo. O Engenhão! Não desmerecendo a Catedral, que é o Maraca, o Engenhão é realmente um espetáculo. Chegara. Estava em casa. Na casa do Fogão, meu time do coração. Desci do ônibus cantando internamente: "Foooogoooo! Foooogoooo! Foooogoooo!" Segui a pé, na verdade quase correndo, o resto do caminho que me levaria à casa da minha mãe sentindo-me a própria garota-carioca-sangue-bom, Imperatriz do Subúrbio! E tentando prender o riso. Falta pouco! Respira!