quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Nascer e morrer


Nascer e morrer
Silvia Britto

Mais uma dessas madrugadas...
Dizem que as madrugadas não foram feita para descansar e sim para pensar.
Verdade.
Mais uma vez estou eu aqui, falando sozinha, sem encontrar eco para as minhas palavras.
Falo sozinha. Para as paredes. Mas se quiser ser um pouquinho mais romântica, falo para a Lua, linda lá fora, ainda tentando dar-me um pouquinho da sua atenção.
De que adianta falar se as palavras não encontram um porto seguro onde repousar?
De repente, dei-me conta de que nascemos sozinhos e é exatamente assim que morreremos.
Sós nas nossas verdades, inalcançáveis aos que não nos querem ouvir por estarem embriagados por suas próprias verdades. Por aqueles que preferem o acalanto do sono às angústias e dúvidas que a realidade tem a lhes oferecer.
Realidade. Nada mais é do que um pesadelo que faz parte da vida dos que não querem ou não podem amar. Dos que não conseguem agarrar-se à linda viagem de sonhos que é a vida.
Nasci com esse dom, de saber amar. Com isso, sofro, sou mal interpretada e mal acreditada.
Nascemos sozinhos, vivemos nossas verdades sozinhos e, raramente, encontramos alguém que nos consiga ouvir.
A vida, quase que integralmente, segue fácil e tranquila quando optamos por viver apenas para nós mesmos.
Não é fácil e fico aqui, nesta madrugada, a pensar. Por que tudo tem que ser tão complicado? Por que a tendência universal é que sejamos tomados de acordo com a vivência de outrem, que insistem em não dialogar conosco e se mantém fiéis e reféns das suas crenças?
Como pode o mundo evoluir, o amor crescer e a vida tornar-se fácil e tranquila quando dependemos tanto da credulidade alheia?
Estou cansada de falar sem ser ouvida, de ver minhas belas palavras desacreditadas na sua veracidade.
Quisera fosse diferente. Mas qual! Vejo-me constantemente questionada na verdade de ser quem sou.
Que interesse teria eu de mentir? Já passei da metade do meu túnel. Já estou com idade suficiente para colher frutos e não para semear o meu futuro.
Por isso passei tantos anos descrente do destino. Não é dito que aqui se faz, aqui se paga?
Nada do que fiz foi com o intuito de cobrar. Mas questiono o motivo de nunca ser recompensada pelo imenso trabalho de ser quem sou.
Pelo jeito, é assim que tem que ser... Nascer, viver e morrer sozinhos, sem rascunho e sem borracha.

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sábado, 20 de dezembro de 2014

Amar demais


Amar demais
Silvia Britto

Já fui acusada, algumas vezes, de ser uma mulher que ama demais. Acusada, pois o amor, neste caso, é considerado uma doença. Sinto desapontar mas discordo veementemente. Amor nunca foi e nunca será doença. Não deve ser confundido com obsessão, essa sim, destruidora vil e egoísta dos sonhos de outrem.
Todos já tivemos, em algum grau, nosso coração machucado, dilacerado. Desse mal, ninguém escapa. Mas isso deve tornar-se um ensinamento, para que possamos entender que o erro não está em doar-se e sim na atitude do outro em não saber, ou não querer, receber amor.
Fico pensando o que passa pela cabeça de algumas pessoas que têm medo de amar. Temos um só mundo pela frente e olhem para ele! Lindo! Ensolarado! Cheio de música, sol e mar! Não há tempo para se deixar de amar! O mundo é lindo mas o tempo é curto e a vida não para! A vida lá fora nos chama e convida a brincar.
Um coração que ama de verdade é igual a um guerreiro sem escudo: sabe que irá machucar-se mas não desiste de lutar. Amar não é para os fracos. Torna-nos seres vulneráveis pois abre nosso peito e deixa que cheguem, lá dentro, pessoas que podem fazer uma imensa bagunça na nossa vida e nos nossos sentimentos. Amar nos deixa exaustos, pois draga todas as nossas energias e causa dor real, física, em nosso coração. Mas quando a dor passa e nos descobrimos amados de volta, a recompensa é a luz de todas as luzes, é o que vai encher nosso corpo de energia para seguirmos felizes o resto da nossa estrada.
Também sou muito acusada de ser chorona. Pois eu digo que há algo de sagrado nas lágrimas. Descobri, há pouco, por exemplo, que um dos orixás mais lindos da Umbanda, Mamãe Oxum, chega sempre chorando, com a emoção à flor da pele. Não concordo que lágrimas são um sinal de fraqueza. São um sinal de poder, de força. Falam muito mais do que mil palavras. São mensagens do que as palavras não podem dizer, tanto para a felicidade quanto para a tristeza.
Também nunca vou tentar esquecer meu grande amor. Seria como tentar lembrar de alguém que eu nunca conheci: impossível! Não quero esquecer o meu anjo de prata.
Amar demais, repito, não é doença, é um dom. Infelizmente, traz consigo reações adversas que traduzem-se em solidão e tristeza por percebermos que muito poucos sabem amar de verdade. E acabamos por ter nossas energias sugadas, somos mal interpretados, manipulados e descartados quando as pessoas percebem que amar não é um jogo e sim um estilo de vida que requer cumplicidade, coragem e verdade. Pé que dá fruta é o que mais leva pedrada, e eu estou muito machucada pelas pedradas que andei levando. Mas meu tronco não vai apodrecer.
Concluindo, digo aos que me acusam que é verdade, amo demais! Ainda bem que tenho esse dom e essa capacidade de deixar pequenas coisas fazerem-me feliz. Que faço do beijo um ato de amor. Que faço do cheiro do meu amor o oxigênio que me faz sonhar. Que faço do gosto da minha paixão um instrumento que me faz  gozar. Sei que meu futuro, provavelmente, é acabar só, mas, felizmente, é assim que eu sei viver.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Da Urca ao Engenho de Dentro (com escala em Deodoro)


Da Urca ao Engenho de Dentro
         (com escala em Deodoro)
Silvia Britto

(Aconteceu há 2 anos)

Tudo começou com um pedido que parecia a coisa mais simples de ser atendido.

Minha mãe ligou me pedindo que fosse com ela ao Norte Shopping e que a ajudasse a comprar um vestido para usar no Natal. Vá lá que fazer compras no shopping na época do Natal não é exatamente o que eu chamo de simples diversão. Mas, prática como sou e imbuída do famoso espírito natalino encontrei logo uma solução. Estava certo. Iríamos às dez horas da manhã, assim que o shopping abrisse. Encontraríamos as lojas vazias.

No dia combinado, saí da minha casa na Urca e em poucos minutos, lá estava eu, britanicamente pontual, na Central do Brasil para pegar o direto para Japeri, coisa que já fiz centenas de vezes. É muito simples. Apenas uma estação da Central até o Engenho de Dentro. Porém, ouvi um aviso vindo de uma dessas vozes indecifráveis de além dos autos-falantes e achei ter entendido que esse trem pegaria uma via paralela e só pararia em Deodoro. Na dúvida, melhor perguntar a algum funcionário. Localizei um, devidamente uniformizado, que deveria saber do que falava. Ele fez umas perguntas, com cara de autoridade, através do seu radinho falante e disse-me, com toda segurança, que não havia problema algum. O trem seguiria seu trajeto normal. Infelizmente, descobri em questão de poucos minutos que informar não é o forte dos funcionários da SuperVia.

O trem seguiu, lotado como sempre, por um trilho cruzado em direção à Deodoro. Parou algumas vezes no meio do caminho à estação por motivos técnicos. Havia uma "composição avariada" à nossa frente e pediam-nos que, por favor, cooperássemos e esperássemos a liberação da via. Onde mais eles achavam que iríamos se resolvêssemos não obedecer? E ali ficamos por longos minutos.

Eu pingava de suor. Havia escolhido o traje errado para aquela empreitada. Normalmente, quando vou pegar o trem para algum lugar, deixo o modelito Garota-Dourada-Zona-Sul em casa e visto o Musa-Comportada-da-Lage. Que fique claríssimo aqui! Não vai aí nenhum preconceito ao subúrbio. Tenho lembranças maravilhosas de churrascos inesquecíveis nos quintais de Nova Iguaçu e Xerém. Sempre regados ao som de Alcione e de rodas de samba improvisadas para lá de profissionais. Esgoelava-me cantando Noel e Cartola com a rapaziada local. Quero apenas ressaltar que, como toda mulher que se preza, tenho um modelito  adequado para cada tipo de acontecimento.

Finalmente chegamos a Deodoro. A estação estava um buxixo só. Era como se alguém houvesse retirado a tampa de um recipiente que continha um bolo infestado de formigas. As formigas foram pegas no flagra enquanto levavam suas vidinhas normais de comedoras de açúcar. E instalou-se a confusão. Era gente indo, vindo, subindo, descendo. Parecíamos um monte de piões desnorteados girando com caras de interrogação. Dali não se vinha nem se ia a lugar algum. Pelo menos, não de trem! Interdição Geral! E num desses rodopios, fui lançada para fora da estação. O cenário não era mais tranquilizador. Tinha que achar meu caminho de volta a algum lugar.

Minha vontade era de rir daquele caos humano do qual eu fazia parte. Mais uma dessas coisas que só acontecem conosco. As setas nas placas apontavam  para direções opostas umas às outras. Ao mesmo tempo, apontavam para lugar nenhum. Pelo menos nenhum que fizesse algum sentido. Comecei a lê-las e tive a sensação de estar num concurso de Garota da Laje 2012. Eu, que só estava acostumada ao circuito Tim Maia "Do Leme ao Pontal", de repente vi desfilando na minha frente faixas de Madureira, Vicente de Carvalho, Pavuna, Marechal Hermes, Bangu, Campo Grande, Realengo, Vila Valqueire, Nilópolis, Anchieta... 

Oops!! Anchieta! Há pouquíssimo tempo descobri ter sido o bairro onde uma pessoa muito querida havia passado sua infância. Imediatamente liguei para ele. Mais para dividir o momento do que para pedir ajuda. Eu já não conseguia parar de rir com aquela situação inusitada. Ele nem deve ter estranhado o meu riso descabido. Já sabe que sou assim mesmo, sem noção. Deparei-me com uma placa onde se lia: Batalhão Logístico. Quá quá quá quá!! Logística?! Onde?? Ô vida irônica... Mas meu interlocutor, prontamente identificou: "Você está na Vila Militar!" Fato! Êba! Não estava mais perdida. Mas e agora? Como sair dali? Logo identifiquei um rapaz com roupa de exército. Ao lado dele, uma placa onde estava escrito: "Exército Brasileiro. Braço forte. Mão amiga". Era ali mesmo que eu iria pedir uma orientação. Antes de desligar o telefone fui ainda sabiamente aconselhada a não rir demais quando falasse com o rapaz. Verdade! Tinha que me controlar. Até mesmo para que não parecesse desacato à autoridade. Vai quê! Compenetrei-me ao máximo para fazer cara de perdida e caminhei ao encontro do rapaz que já prestava atenção em mim há algum tempo e deve ter pensado: "Putz! A louca risonha vem em minha direção!". Consegui fazer com que ele confiasse em mim e me orientasse. O número mágico do ônibus era 689. Agradeci e fui para o ponto.

O ponto estava lotado. Os ônibus não queriam parar, pois já não havia mais como acomodar passageiros. E como o Diabinho dos Contratempos sempre anda de mãos dadas com sua inseparável companheira, a Maré de Azar, começou a me dar uma vontade enorme de fazer xixi. Eu já tentara ignorá-la ainda no trem. Mas ela resolveu não se deixar subjugar. Pronto! Não podia mais rir. Era só o que faltava! E quanto mais eu me contraía, mais eu tinha vontade de rir da comicidade da situação. 

Comecei a recorrer a artifícios psicológicos com a intenção de distrair minha mente. Decidi brincar de ler o destino dos ônibus que passavam. Eis que passa um que ia para Pau da Fome. Onde? Quá quá qu... Segura, segura! Seria perto da Boca do Mato? Quá quá qu... Concentra, concentra! Lembrei-me de uma cantiga de rodas. Subúrbio sempre me inspira a brincar de roda. Havia uma cantiguinha que eu amava de paixão, Teresinha de Jesus. No final, um versinho dizia: "da laranja quero um gomo, do limão quero um pedaço, da morena mais bonita, quero um beijo e um abraço". Então! Eu não era uma morena bonita? Era só pegar a laranja e o limão da cantiga e fazer um suco.
Laranja e limão.Pura vitamina C. "C" de Carioca de Coração. E assim entrei no ônibus. Uma maranhense com alma de carioca seguindo a trilha da carioquice do subúrbio.

Passava pelos templos e dizia amém. 
Madureira: Portela! Amém! 
Padre Miguel: Mocidade Independente! Amém. 
Quintino: Zico! Amém.

E assim segui, respirando e me nutrindo daquela cultura da simplicidade que tanto me encanta. Ela é parte de mim. Infelizmente não tenho mais como frequentar essas bandas. Não tenho passaporte. Não tenho mais quem me convide para ir ao infinito e além de Xerém. Meu limite é o Engenho de Dentro.

De repente, numa curva em que o motorista do ônibus quase me perdeu pela janela aberta, vi aparecer majestoso o templo atual das tardes cariocas de domingo. O Engenhão! Não desmerecendo a Catedral, que é o Maraca, o Engenhão é realmente um espetáculo. Chegara. Estava em casa. Na casa do Fogão, meu time do coração. Desci do ônibus cantando internamente: "Foooogoooo! Foooogoooo! Foooogoooo!" Segui a pé, na verdade quase correndo, o resto do caminho que me levaria à casa da minha mãe sentindo-me a própria garota-carioca-sangue-bom, Imperatriz do Subúrbio! E tentando prender o riso. Falta pouco! Respira!


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Um nasce pra sofrer enquanto o outro ri

Um nasce pra sofrer enquanto o outro ri
Silvia Britto

Um nasce pra sofrer enquanto o outro ri...
É a pura verdade. Isso não quer dizer que sejamos sempre os que sofrem ou os que riem. Na verdade, todos nascemos para sofrer e para rir. Fazemos um pouco de tudo. Infelizmente, é do ser humano entender-se feliz baseado na infelicidade do outro. Mas, se fôssemos todos felizes, a arte não existiria, lindas canções não seriam criadas, lindas palavras não seriam ditas.
Não há como impedir o sofrimento de pessoas que, muitas vezes, dependem dele para crescer. Amar é ter coragem de ser feliz. É fazer da nossa petulância, o exemplo. Que vivamos sem pena dos que precisam enfrentar suas perdas para evoluir em sua estrada. Que não caiamos em armadilhas de competição e acomodação. Pena é um sentimento mesquinho e pobre, que não faz nada pela autoestima de quem se respeita e se gosta.
Que atire a primeira pedra quem nunca fez um filho, um amigo, um amor chorar. São pancadas que damos involuntariamente, quase num instinto de ajudar a crescer. Pancadas que libertam, pois fazem com que as pessoas aproximem-se mais do que realmente as faz felizes e deixem de ser pequenos seres parasitas da nossa felicidade e da nossa energia vital. Matam-nos quando nos têm como certos, objetos quaisquer em um canto de suas vidas. Sentem falta do que lhes convêm, não do que lhes completa. E isso é pura maldade. Eles não fazem por mal, mas por acomodação. E os culpados por isso somos nós, que nos deixamos usar e manipular, que alimentamos essa doença dependente da alma.
Ninguém é responsável pela felicidade de ninguém! Felicidade só tem valor se conquistada de dentro para fora. Magicamente, a partir do momento que nos libertamos para seguir nosso desejo, contagiamos os que nos cercam e lhes transmitimos um misto de coragem, admiração e agradecimento pela nossa verdade. Libertemo-nos para libertar, com coragem, sem mentiras e com muita vontade de colher os frutos bons que plantamos pelo nosso caminho. Eu mereço, você merece, todos merecemos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Compromisso com a felicidade


Compromisso com a felicidade

Silvia Britto


Felicidade é um sentimento muito particular a cada um de nós. O que me faz feliz pode não fazer o mesmo pelo meu vizinho. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é e, por isso, o caminho que trilhamos para atingir essa "tal felicidade" é muito pessoal.
A verdade é que há muito já percebi que esse sentimento é uma miragem, um momento fugaz, que serve apenas para contrastar com a tristeza e obrigar-nos  a ter força para seguir pela estrada que a nós foi destinada. Portanto, torna-se infinitamente mais importante o caminho que pode levar-nos à "tal".
Todos acumulamos problemas, diariamente, com os quais devemos lidar, para tornar a nossa existência viável. Sejam questões financeiras, familiares, amorosas, de saúde, de amor próprio, sempre haverá algo a ser resolvido e a dança das cadeiras das prioridades é incessante. Claro que, por vezes, ficamos cansados disso tudo e pensamos que não teremos cacife para continuar no jogo.
Eu, mantendo a essência de mulher intensa e transbordante, não poderia ser diferente. Lido com muitas questões, diariamente, que tentam levar-me a extremos de prazer e dor, num jogo de interesses em que tudo que se quer é encontrar maneiras de passar despercebido pelas armadilhas da vida. Impossível. Tenho muito pelo que chorar e sofrer, mas tenho mais ainda pelo que sorrir. Muitas vezes, choro e rio com o mesmo fato, dependendo do foco que se faça necessário para o momento. Às vezes, as duas pontas do meu viver embaralham-se e fico, qual louca, sorrindo um riso de lágrimas. Bipolar mais do que assumida, mas não saberia agir de forma distinta.
O problema é que, ao usar as poderosas ferramentas do riso e do choro para a mesma situação, acabo estagnando-me numa camisa de forças invisível e não chego a lugar algum. E é nessa hora que o monstro da depressão espreita-me ao longe, esperando uma brecha para cravar suas garras em minha alegria.
Sempre julguei-me inteligente e corajosa nas minhas escolhas. Algumas dessas escolhas têm a mesma proporção da minha coragem, o que não me deixa lastro para o conforto. Viver, mas viver de verdade mesmo, é exatamente sair dessa zona de conforto, coisa que, modéstia à parte, sei fazer com maestria. A acomodação é pior do que a morte prematura. É morte em vida, é vida desprezada, é pecado mortal da alma. Desta vida, só levamos a alma, o que torna imperioso que dela cuidemos com carinho. Nascemos para cuidar da nossa raiz, para cair na estrada, para ficar por um triz. Ousar é preciso para que consigamos da vida o que ela tem de melhor: a liberdade de sermos quem somos e a alegria de viver sem culpas e sem vergonhas.
Se Deus realmente existir, Ele não há de nos querer tristes, cabisbaixos, ignorando o grande presente que nos deu, a VIDA. Não há de ficar feliz de ver-nos desperdiçando nosso tempo com passados que não mais nos pertencem e que apenas serviram para nos mostrar que escolhas fazer em nome da felicidade e do amor. Quererá ver a desenvoltura com que construímos nossos caminhos. Amará nossos sorrisos, ainda mais, se formos autênticos e se tivermos força de enfrentar nossos medos e nossas opções  de cabeça erguida, sem o grande fardo de ser responsável pela felicidade ou tristeza de outrem! Ninguém é responsável pela felicidade de ninguém! Essa é uma melodia que se dança solo, sempre na pista, a espera de alguém que se encaixe ao nosso passo. Fazer o nosso caminho com honra, alegria e sinceridade, é o que Ele espera de nós.
Resta-me apenas a opção de como enfrentar os dragões de duas cabeças que encontro pelo meu caminho. Opto pelo caminho da leveza, do amor, da verdade e da entrega. Meu compromisso é com a felicidade e não com a estagnação. Tento, incansavelmente ficar de frente com minhas dores, não as desprezo. É necessário que as enfrente para que eu possa valorizar a ausência delas. Não ligo se pareço incoerente. Que atire a primeira pedra quem não o é. 
Tenho sim, mil razões para chorar, mas faço uma força danada para não deixar que esses sejam os momentos que regerão a minha vida. Quero poder ninar a minha filha quando estou com ela; brindar com os amigos à sua saúde; agradecer aos irmãos de alma pela sua força. Acima de tudo, quero entregar-me inteira ao meu amor, quero ser completa ao seu lado nos momentos que juntos passarmos. Não quero deixar que minhas inseguranças e incertezas estraguem os deliciosos beijos de amor e as carícias de suas mãos pelo meu corpo. Isso não é jogar os problemas para baixo do tapete, pois pretendo vivê-los um por um e resolvê-los da melhor forma possível, cada um a seu tempo. Enquanto misturo tudo, imaturamente, deixo de viver,  e o que pensei estar resolvendo, na verdade foi apenas uma grande perda de tempo. 
Há momentos em que certos problemas só podem ser resolvidos de forma solitária. E é isso que tento fazer. 
Não vou deixar que nada macule minha alegria de viver e minha positividade. Vou dar a Cesar o que é de Cesar, lutando muito para não misturar as estações. Por isso, digo, já disse e repito, meu único compromisso é com a felicidade. Por ela rio, por ela choro, por ela faço o que for necessário. Fora correntes que nos prendam a passados que não nos cabem mais! Fora incertezas que destroem nosso tesão! Fora manipulações de pessoas que não sabem o que é amar! Que se soltem as amarras do crescimento, tanto nosso como de nossos filhos! Que sejamos amados pelo que somos e não pelo que omitimos ou fingimos viver! A vida é curta, o tempo urge e os beijos não podem parar!

À felicidade!

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Sedução e paixão


Sedução e paixão
Silvia Britto

Sedução...
Sem querer, peguei-me pensando no significado dessa palavra. É a capacidade de encantar ao outro. É o momento em que esforços não são medidos para chegar ao objeto de nosso desejo.
No amor, é um dos mais encantadores momentos, em que doces “nadas” são sussurrados aos nossos ouvidos, fazendo a pele arrepiar. É o momento em que deixamos nossa criança interior vir à tona e reinar quase que absolutamente, solta e feliz. Não há nada mais sedutor do que o carisma de uma criança.
E assim seguimos, felizes, despreocupados, dançando pelas ruas, cantando felizes, descobrindo o prazer que cada pedacinho do corpo do outro nos proporciona. Embriagando-nos de novos cheiros, novos sabores e novas emoções.
Não há como negar que é um momento mágico. Lágrimas brotam aos olhos de quem está seduzido tanto quanto de quem seduz. O mundo para de girar e tudo se concentra em apenas um nome, um rosto, uma boca. E os pés, como em um sonho do qual não se quer acordar, não andam, mas flutuam.

Paixão...
É a emoção quase patológica do amor. Sentimento doloroso, muitas vezes com perda de individualidade, mas que exerce um fascínio absurdo sobre quem por ela é atingido. Ultrapassa todas as barreiras possíveis e imagináveis.Quando completamente correspondida, causa grandiosa felicidade. Dizem que é um sentimento passageiro... Dizem que não há como durar uma eternidade. Como tudo na vida, há o momento de retorno à realidade, onde a paixão cede lugar ao amor e o mundo tende a recuperar seu passo. E tudo fica mais sereno, a calmaria se instala e o coração se aconchega na paz da certeza.

E é aí que começa o meu problema. Não chego a alcançar esse patamar de tranquilidade. Sou intensa. Vivo eternamente enamorada e encantada com a sensação maravilhosa que um “eu te amo” provoca nos meus sentidos. Busco abraços, contatos, cheiros, como se nunca saísse do estágio da paixão e da sedução.
Obviamente, sempre chega o momento em que uma certa paz e certeza instalam-se em algum lugar ao fundo, mas não é isso que me faz arder de vida. Ardo com o inesperado, ou esperado, toque no meu pescoço, que tem o dom de arrepiar cada célula do meu corpo.
Tenho crises de abstinência de beijos, abraços, cafunés, danças no meio da rua, declarações inesperada e deliciosamente fora de hora. Sinto ânsias de encontros! Sou uma eterna apaixonada e sei que tenho que tomar extremo cuidado com esse meu sentimento sob o risco de sentir-me rejeitada ou esquecida. Nem todos nasceram sem esse freio normal e, se seguirem o meu ritmo, acabarão atropelados pelo próprio desejo.
Estou em fase de tentar amadurecer. Fase de tentar entender que cada um tem seu ritmo, independentemente do amor que possa sentir. Tranquilidade não é sinal de desamor ou falta de interesse. O fim da sedução, não significa falta de paixão. Minha tendência é ser eternamente uma adolescente enamorada e, se não tomar muito cuidado com isso, acabo por me machucar ao esperar do outro, coisas que não me podem ser dadas. Há milhares de outros detalhes que impedem que essa paixão e o jogo de sedução estejam sempre no topo da lista das prioridades das pessoas em geral.
Entretanto, faço questão de marcar muito bem a minha posição inconsequente de eterna apaixonada. Luto para dar atenção também aos inevitáveis problemas do dia a dia, mas nunca deixarei que nada interfira no delicioso jogo de sedução, entrega e paixão, tão difíceis de ser alcançados, desacreditado por alguns e invejado por muitos.
Apenas tenho que aprender a me bastar e ficar feliz em sentir o que sinto, independentemente do que o outro possa estar sendo capaz de me dar. A felicidade e plenitude vêm de dentro e nunca devem ser cobradas de quem quer que seja. Cada um dá o que pode e quando pode. Fico muito feliz em apenas sentir o que o outro provoca em mim e tento desligar-me do que me pode ser dado. Dá quem pode e como pode. Cobra quem não sabe amar. E é isso que aprendo mais e mais a cada dia. Apesar da minha carência sem fundamento, não quero cobrar... Quero amar.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

No Maranhão, babaçu abunda


No Maranhão, babaçu abunda
Silvia Britto

Abunda.
Mas não é só o babaçu que abunda.
Abundam carinhos que transpiram família.
Abundam lembranças que choram saudades.
Nada como sentir, novamente, o carinho de pai e mãe através de seus irmãos, que carregam o mesmo sorriso, o mesmo calor, o mesmo tempero. Como o famoso vatapá da Lelete, com gosto de vó Dedé. Lelete, tia querida, que ouso dizer, herdou a missão de ser minha mãe do coração, coisa que ela faz de forma generosa e inteira, com carinho e cobranças nas horas certas, coisa que só as mães sabem fazer. Levanta-se cedo, vai ao mercado, cozinha os caranguejos ainda vivos, zelando por seu frescor. Abraça, com muito orgulho, seus netos e sempre sobra um pedaço desse carinho para quem tiver a honra de por ela ser encantado. E toma-lhe cerveja, que os Britto não podem parar!
Lembranças intensas brotam-me pelos olhos, ao deparar-me, mais uma vez, com a casa em que nasci, na querida São Pantaleão, defronte à casa da Dona Glória, com seus filhos amados, que dividiam comigo a deliciosa tarefa de brincar pelas calçadas da rua. Como num sonho, nossas vozes infantis me vêm ao coração e vejo-me gargalhando, pulando elástico com as meninas Lago, admirando a beleza idêntica das lindas gêmeas, Luísa e Heloísa, da casa vizinha, trocando beijos roubados com o Beto, soltando papagaio com Pedro, Paulo e Raimundinho pelos telhados das casas, enquanto vovó Laíde preparava o mais gostoso arroz de toucinho que já comi, empatado apenas com o do Tio Moza, que provou haver herdado seus dotes culinários.
A casa agora, abriga meu tio, Mestre Patinho, uma das figuras mais respeitadas em São Luís, pela sua arte de rua, na capoeira e também pelo seu jeito despojado de valores que nos são ditos como "normais". Patinho é xamã. Para quem não sabe, o xamanismo é uma das mais antigas práticas espirituais, médicas e filosóficas da humanidade. Essa honra lhe foi conferida durante sua convivência com índios no alto Xingu. Patinho não anda. Ele flutua pela vida com valores próprios e despojados de materialidade. É amado, respeitado e admirado por seus filhos e netos de uma forma que faz doer o coração. Agora, também admirado por mim, que consego enxergá-lo com os olhos de uma mulher aberta às incoerências e falta de nexo da vida.
E o passeio pelo tempo e pelas mãos que ajudaram a moldar a minha essência veio fortificar o meu sentimento de guerreira, de moleca, de lunática, eterna criança e nordestina filha da terra e do mar da minha querida Ilha do Amor. Que apelido sugestivo, não acham? Ilha do Amor! Voltei revigorada pela certeza de pertencer. Sou bandida, sou solta na vida, mas tenho ainda meu porto seguro, com suas lindas histórias e passagens de vida de um tempo que não volta mais, mas nunca  morrerá.
Peço a benção aos meus queridos Britto, Lelete, Kêta e Catiba, meu padrinho lindo. Benção aos Ramos. Sua benção Mestre Patinho. Bença Moza, meu eterno Gato Louro, gaiato como ele só e o maior contador de casos de todos os tempos!
Volto ao mundo presente com a certeza de que essa ideia de passado e futuro são apenas miragens que a mente cria para não viver em saudade pelo que passou e ansiedade pelo que ainda virá. Na verdade, o passado é tão presente quanto o futuro e é dele que ganhamos a força e a energia necessárias para continuar agregando pessoas queridas e seguir construindo nosso futuro que, um dia, também deixará lembranças.
Salve São Luis do Maranhão!