sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Em defesa das migalhas


Em defesa das migalhas
Silvia Britto

Por ter sempre sido uma pessoa que não tinha outra maneira de sobreviver se não fosse contentando-me com migalhas, criei um carinho muito especial por elas e lanço-me aqui em sua defesa. É certo que tudo pelo que passamos contribui para nos fortalecer e definir nosso papel no mundo. E é aí que entram as migalhas. Parece que não, mas elas nos fortalecem.

Há sempre um tom pejorativo em volta do termo "migalhas".Todos possuem uma ideia muito negativa a respeito delas. Mas não é bem assim.

Devemos prestar mais atenção às nossas pequenas e insignificantes conquistas do dia a dia. Graças a elas conseguimos caminhar e chegar aonde estamos. Quando se é pequeno, literalmente falando, são as pequenices da vida que nos enchem o coração de alegria. Quer coisa mais sublime do que ouvir uma história bem contada? Rir de uma piada boba? Do que dar vida a uma página em branco com uma caixa de lápis de cor? Do que ter a profissão dos seus sonhos concretizada em uma tarde, enquanto se dá aula de Português para bonecas ou se brinca de Miss Brasil?

Mas não falo apenas de coisas concretas. Quero defender também as migalhas emocionais. O pouquinho de amor e atenção que nos deixam felizes no cotidiano e que costumamos relegar ao segundo plano. O abraço do amigo. O "muito bem" do professor. O sorriso rápido do pseudo-paquera. O cheirinho de roupa limpa.

Fui uma criança que sobreviveu de migalhas.Emocionais e materiais. A princípio parece uma coisa triste. E é. Recolhia cacos. Passei muitos momentos de privação. Sentia-me triste e solitária. Mas é inerente ao ser humano a necessidade de sobreviver. E fomos dotados de pensamentos e emoções que nos ajudam nessa tarefa diária. Muitas vezes, isso sucumbe à realidade de tocar a vida em frente. 

Mas por que falo disso? Ah, sim, por causa das migalhas. Não nos damos conta num primeiro momento de como migalhas são importantes. Apesar de com certeza já termos ouvido ou pensado o contrário. Quem nunca ouviu o ditado: "de grão em grão a galinha enche o papo"? E é assim mesmo. É um pouco aqui e um pouco ali. 
E ao longo da vida, as migalhas acumuladas vão formando um "muito". 

Ter essa percepção faz com que eu agora olhe para trás e sinta um carinho especial pelas minhas pequenas grandes miudezas. Felizmente, embora envergonhada, tive a humildade de acolhê-las. Por inúmeras vezes, senti-me inferior ao perceber que muitas pessoas que conviviam comigo as ignoravam por completo. Com certeza, pensava eu, por sentirem que delas não precisavam. Arrogância de gente confiante. E eu ali, a recolher meus caquinhos. Uma verdadeira mendiga de emoções.

Mas a vida mostrou o contrário. Hoje, com certa tristeza, me dou conta de que muitas daquelas pessoas possuem um saco cheio de vazio. Já o meu, está cheio. De migalhas. De pequenices. De miudezas. É a minha caderneta de poupança de vida, que agora transborda de lembranças coloridas. São meu orgulho e a certeza de que valeu a pena recolhê-las e guardá-las com carinho.

Quer um conselho? Elas ainda abundam por aí. (Abundam... Palavra feia, né? Mas no momento ela é mais-que-perfeita!) Ainda há tempo de sair recolhendo-as. Elas são o nosso feijão com arroz de cada dia. O que nos fortalece para irmos à luta em busca do resto do pão. Se há migalhas, é porque, certamente, haverá um pão inteiro nas proximidades. Elas são pistas de que algo maior nos ronda e nos preparam para abocanhá-lo. 

Portanto, procure. Fuce. Vasculhe. Garimpe. E não deixe nada passar despercebido.Aprenda apenas a separar o que é reciclável do descartável.

Boas migalhas pra você!



domingo, 27 de julho de 2014

Lilica


Lilica
Silvia Britto

Estou convicta de que a Lilica é um anjo que vive entre nós. Chegou até nós com a suave missão de ensinar-nos as palavras resignação e altruísmo.
É muito amada pela imensa família de tios e primos que temos espalhados pelo Brasil afora e sempre encanta a todos que a conhecem por sua doçura e transparência infantil.Sou totalmente apaixonada por ela e não vejo minha tarefa de ter que cuidar dela como obrigação. Faço com prazer e muito carinho e não há espaço para nenhum outro sentimento que não seja amor na tarefa de cuidá-la.
Mas nem sempre foi assim. Minha irmã mais velha. Seu nome verdadeiro é Liane e é como eu sempre a chamava, numa tentativa de mantê-la afastada de mim. Quando criança, eu tinha os mais variados sentimentos em relação a ela. Enxergava-a, com meus olhos de criança, como uma menina problemática, que roubava toda a atenção da minha mãe e a fazia sofrer. Não raro, escutava minha mãe lamentando-se, dizendo que ela era uma "cruz" que Deus havia destinado para sua vida. Dramática, a minha mãe. Não estou dizendo que ela não amava a Lilica com todas as suas forças! Não! Minha mãe devotou sua vida a ela! Mas reclamava...
Cresci ouvindo aquelas lamúrias e acredito que essa foi uma das principais razões que sempre me afastaram de Deus. Por que seria Ele tão mau a ponto de fazer aquilo com a nossa família? Na escola que frequentávamos juntas, Lilica sempre foi tratada como "diferente". Não descia para o recreio com o resto da turma e ficava da janela, observando a brincadeira. Crianças de cinco anos podem ser muito cruéis e lembro-me das meninas da turma provocando-a do pátio, mostrando a língua com as mãos nas cinturas e debochando da sua "deficiência" de aprendizado. Eu, criança, ainda aprendendo a entender o mundo, sentia-me envergonhada por ela ser minha irmã e engrossava o coro de deboches a ela.
Também foi por sua "culpa" que tive que deixar minha cidade, minha família e meus brinquedos para trás, em São Luis - MA, para vir morar no Rio de Janeiro. Viemos em busca de um tratamento que, mais tarde, mostrou-se ultrapassado e inútil. Lilica cresceu na idade biológica mas manteve a mente de uma criança de 4 ou 5 anos de idade.
Ninguém tem ideia do peso que carreguei por toda a minha vida por causa dessa atitude, literalmente, infantil a que me permiti. Foram alguns anos de análise tentando perdoar-me por aquele comportamento. Por mais que eu não passasse de uma criança, nunca me perdoei. Tento agora expurgar essa culpa, de uma vez por todas, abrindo o meu coração neste texto.
E os anos iam passando, Lilica crescendo, e minha mãe a tornava cada vez mais dependente. Na minha opinião, minha mãe errou muito na maneira com que conduzia a sua "sina". Mas não tenho o direito de julgá-la, pois sei que errava por amor. Ressentia-me também do fato de a mim ser jogada a inteira responsabilidade de continuar carregando o "fardo" depois que minha mãe partisse. Na sua tristeza emocional, mamãe não percebia o peso que sempre colocou na minha vida. Ela buscava minha total resignação e eu a afrontava diretamente, dizendo que aquela árdua tarefa eu não assumiria. E vivíamos as duas, infelizes nessa incerteza. Felizmente, Lilica não se deixava atingir por aquelas emoções pequenas e a tudo assistia com um olhar maduro e muito mais sábio do que nós, ditas "normais".
Até que o destino seguiu seu curso e nossa mãe nos deixou. Nossas atenções, mais do que chorar a perda da minha mãe, canalizaram-se todas para a Lilica. Como ela reagiria sem a sua escudeira de toda uma vida? Mais uma vez ela surpreendeu a todos e encarou a morte com a naturalidade que só os sábios possuem. Com sua simplicidade e doçura, tranquilizou-nos e mostro-nos que caminhos seguir. Finalmente pude juntar-me ao meu irmão e expor toda a angústia que carreguei por toda a minha vida. Felizmente, ele nunca pensou que eu seria a única responsável pela Lilica. Na verdade, também achava que essa responsabilidade cairia sobre ele, que sempre foi mais próximo da família do que eu, com minha rebeldia, permitia-me ser. Pudemos abrir nossos corações e, juntos, chegamos a melhor das soluções, em que dividimos os cuidados da nossa amada Lilica. Foi um alívio tanto para mim, quanto para ele, que vimos nossas preocupações divididas pela metade e, sem o peso do remorso, muito mais fáceis de serem vividas.
Hoje, estou completamente livre de qualquer mágoa ou culpa que possa ter tido ao longo da minha vida com relação a essa questão e cuido da Lilica com muito amor e alegria. Ela é, sem dúvida, um anjo que nos ensinou a sermos mais fortes e a esperarmos a hora certa para lidar com as dificuldades. Ensinou-nos que a preocupação antecipada é coisa de gente imatura, que passa a vida combatendo dragões imaginários que não passam, na verdade, de borboletas libertadoras.
Torno a repetir que sou totalmente apaixonada por ela e que cuidar de um anjo assim, não apenas é uma alegria, como um privilégio!

Lilica, eu te amo!

sábado, 26 de julho de 2014

Que mundo maravilhoso!




Que mundo maravilhoso!
Silvia Britto

Nossa! Como tô chorona hoje! (Novidade, rsrsrsrs)
Tô aqui, debulhando-me em lágrimas com esta mensagem de bom dia enviada pelo meu lindo amigo, Jotinha... Muito emocionada de ter o privilégio de viver neste mundo maravilhoso.
Não consigo imaginar como há pessoas que são cegas  a isso tudo, e que passam a vida tristes, infelizes. Entendo que a vida também é cheia de dificuldades. Não sou imune a elas. Mas em todas as situações, temos que ser capazes de ver alegria e felicidade.
Agradeço muito por ser parte desta maravilha. Também agradeço por ser cercada por um exército de anjos lindos, sempre dispostos a me dar a mão e não deixar que eu nunca desista de buscar a felicidade nas grandes e pequenas coisas da vida.
Se a verdade for que a vida é uma só, que tenhamos a coragem de encará-la de frente e que possamos ser parte fundamental para que o amor e a esperança nunca abandone nossos semelhantes. Se, ao contrário, esta seja apenas uma das muitas vidas de que iremos usufruir, que tenhamos o discernimento de preparar o mundo para que, quando retornemos, ele esteja cada vez mais lindo.
Que nossas angústias sejam parte de um etapa de crescimento.
Que nossas tristezas nos deem a real dimensão do que é a felicidade.
Que nada nos impeça de ter a ousadia de viver o amor.
Que nunca cometamos o pecado de não sermos agradecidos aos que nos querem bem.
Que nossos inimigos cumpram a tarefa linda de nos ensinar a sermos cada vez melhores.
E que nunca desistamos da vida, assim como ela nunca desiste de nós.

Amém.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Escrever para ser


Escrever para ser
Silvia Britto

Há coisas que só saem de nós por escrito. E é por isso que escrevo. Quando vejo a tela em branco, ou a folha de papel, para ser mais romântica, os pensamentos e  emoções afloram-me à ponta dos dedos e pulam para as letras do teclado.
Há coisas que eu já queria dizer há muito, mas não tinha coragem. Outras pegam até a mim mesma de surpresa, por não tê-las ainda tão claras em minha cabeça. Fato é, que não escrevo por vaidade, ou para fazer fofoca de mim mesma. Escrevo por necessidade de tirar certas emoções de dentro de mim, tanto para melhor abraçá-las quanto para rejeitá-las.
Confesso ser um momento egoísta, em que só eu "falo", não dando chance de ser criticada ou confrontada. Mas acho que acabo remediando essa falha quando tenho a coragem de me publicar, tão despudoradamente nas páginas de um blog.
Colocar para fora tudo que se sente, de um só fôlego e sem edição de pensamentos e emoções, é uma maneira de expurgar culpas e vaidades que de nada contribuem para o nosso melhor viver.
Desde muito pequena descobri que essa era uma das melhores armas que tinha a meu dispor para sentir-me "ouvida". Por mais que, no começo, fosse apenas ouvida por mim mesma, era uma forma de legitimar a minha existência.
Meus textos, a princípio, parecem não concatenar-se uns com os outros, tal a diversidade de emoções que coloco para fora de forma anárquica e desorganizada. Sei que pareço ser uma maníaco-depressiva com minhas constantes alterações de humor. Porém, aproveito para esclarecer que não pareço uma bipolar. Eu SOU uma bipolar, como todo e qualquer ser humano que se deixe olhar mais a fundo. Apenas sou um pouco mais louca por ter a coragem de me expor e admitir-me imperfeita.
Já cansei de ser aconselhada por pessoas queridas para que não me exponha assim. Mas é mais forte que eu. Quando vejo, já escrevi e já lancei no espaço da internet, para que qualquer um sinta-se no direito de me julgar, condenar ou absolver.
Mas isso não me preocupa. Até me excita. Precisa-se de muita coragem para andar nua no meio de uma multidão como a que a internet nos dá acesso. E acaba por tornar-se um vício. E, se esse vício pode ser prejudicial apenas a mim mesma, não vou evitá-lo. Gosto-me assim, plena, corajosa, sem censuras e sem falsas modéstias. Acredito, realmente, que me tornei uma pessoa bem melhor depois que ganhei a coragem de me assumir por inteira. E por isso escrevo. E por isso tenho um blog.
E os textos desconexos, se vistos bem de longe, como a imagem de uma tela de cinema, fazem até um bom sentido. Neles, aparece um retrato em cores vivas e vibrantes, de uma mulher que gargalha e chora ao mesmo tempo, uma mulher-menina, irreverente, barulhenta, petulante, bagunceira e impossível. Exatamente as palavras de minha mãe ao descrever-me. Ah! E Botafoguense, é claro!
E gosto do que vejo... Ou melhor, do que escrevo.
Escrevo para ser.

A mentira é uma verdade que não aconteceu


A mentira é uma verdade que não aconteceu
Silvia Britto

Quando pensamos no real significado de verdade e de mentira, tendemos a dar a esta uma conotação negativa e àquela uma conotação positiva. No entanto, esse pensamento tradicional e baseado na definição encontrada nos bons dicionários da nossa língua, deixa a desejar quando tentamos interpretar esses conceitos de uma forma mais profunda e subjetiva. Nossa mente e nossas emoções são anárquicas e tendem a não se aterem a significados formais. 
Por exemplo, ao confortarmos um filho pequeno que acabou de acidentar-se e apresenta um enorme e sangrento machucado, temos a tendência de simplesmente dizer-lhe: "Não foi nada". Como nada, se o que desejamos é o poder de voltar o tempo com a finalidade exclusiva de evitar o acidente que faz chorar nosso pequeno? Nesse momento, nosso desejo é verdadeiro. Queremos realmente que nada tenha acontecido. Ou seja, é uma mentira com força de verdade. 
Expressões como "não foi nada", "vai passar", "você consegue", dentre outras, muitas vezes contradizem a lógica, mas não o coração. Há ainda o que nosso poeta, Cazuza, afirma interessar-lhe: as mentiras sinceras. Ele conseguiu chegar ao âmago dessa batalha tão filosófica que estabeleceu-se entre conceitos aparentemente opostos. Fez-nos ver que mentira e verdade se confundem e se completam quando a questão é emocional. 
Por fim, todos já passamos por momentos em que desejamos tanto que algo seja verdade, que o fato de estarmos diante de uma deslavada mentira é apenas um detalhe insignificante. Verdade mentirosa ou mentira verdadeira? Pouco importa. Nós é que devemos atribuir o verdadeiro sentido  às nossas palavras e às nossas emoções.

domingo, 20 de julho de 2014

Eu amo feiras livres


Eu amo feiras livres
Silvia Britto

Eu amo feiras livres! Procuro ir sempre que possível.
Sempre me dão a sensação de ter aterrizado em um mundo ideal. Obviamente, o capitalismo corre solto, mas não é o dito "selvagem". Temos poder de barganha, de ajustes, de ofertas, de mudar o preço da mercadoria dependendo da hora do dia e do humor do comerciante ante às nossas lamúrias e tiradas bem-humoradas.
Lugar pra lá de democrático, onde há mistura de classe, idade e raça. O desfile de patroas, empregadas, velhos, crianças, homens, mulheres, negros, brancos, mulatos, gordos, magros, ricos e pobres, fazem com que o mundo pareça ser um lugar simples e sem preconceito, como deve ser a vida.
Biologicamente falando, também é um presente ao corpo, que tem todos os seus sentidos aguçados em uma profusão de cores, odores, sabores, barulho e vida! A beleza dos produtos da Mãe Terra é, cuidadosamente, exposta de forma irresistível e artística, como nos mais belos quadros dos museus de Paris..
Barracas de peixes e frutos do mar mostram a diversidade presente em nossos mares. Flores de diversos tons e odores remetem-nos a uma terra de sonhos. Frutas suculentas e apetitosas fazem-nos pensar que o Paraíso é aqui. Isso sem falar no irresistível pastel, acompanhado de um delicioso e gelado caldo de cana, que não pode nunca faltar.
Não bastando a beleza da coisa, também saio com a mente leve depois de tantas risadas, ao escutar as frases espirituosas dos comerciantes, inundando de humor as nossas manhãs. Colecionei algumas dessas e compartilho-as com vocês agora. Afinal, a alegria é para ser compartilhada! Aqui vão:

- Tem promoção e pramocinha também!

- Olha a mandioca do negão!

- Ô, João! Como é teu nome mesmo? ( um comerciante provocando o outro, berros, claro!)

- Você é do sul? Só se for do ÇUARÁ ( Um pergunta pro outro, inconfundivelmente nordestino, aos berros novamente!)

- Moça bonita...queralho, queralho, queralho roxo pra temperar o feijão???

- Leva limão pra passar no rabo... do peixe!

- Essa banana está a preço de banana!


Não são de uma genialidade sem par? Pois é, um espetáculo à parte, ao vivo em cores e gratuito. 
E deixa eu sair que hoje é domingo, dia de feira numa rua aqui pertinho e o espetáculo já começou!

Bom domingo!


sábado, 19 de julho de 2014

Eu amo você


Eu amo você
Silvia Britto

Eu amo você.
Sem cobranças.
Sem exigências.
Sem obrigações.
Sem censuras.
Sem vergonhas.
Por inteiro.
Por defeitos.
Por teus erros.
Por acertos.
Do direito.
Do avesso.
Por confiança.
Por fé.
Por destino.
Por tudo isso.
E nem só por isso.
Do jeitinho que você é.
Simples assim.
Pronto.
Ponto.