sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A estrelinha Azul


A estrelinha Azul
Silvia Britto

Eis aqui o meu presente de Natal para vocês!



Quando eu era criança, tinha quase todos os disquinhos coloridos dessa coleção. 
Ouvia e ouvia e ouvia...
E a cada vez que ouvia, encantava-me novamente, como se nunca os tivesse ouvido. 
Sabia-os de cor. 
De coração. 
Eram o meu canal para um mundo fantástico onde animais falavam, princesas encontravam príncipes e estrelas comemoravam o Natal. 
Natal para mim nunca teve conotação religiosa. 
Sempre foi um momento de árvores coloridas, presentes e Papai Noel.
Também um momento de muita tristeza, pois, desde cedo, já sabia que Papai Noel não chegava a todos. 
Mas aí já é outra história...
Esta historinha era uma das minhas preferidas. 
Surpreendi-me ao conseguir repetir as falas junto com os personagens e cantar as musiquinhas sem titubear.
São apenas dez minutos, se tiverem oportunidade e tempo de escutá-la . 
Sei que no nosso mundo adulto de hoje, não se tem mais o tempo e a sede de encantamento que costumavam povoar nossa infância.
Portanto, não se sintam obrigados a ouvir nem a responder. 
Queria apenas que vocês entendessem o que se passava no meu coração nas noites de Natal.

Beijo grande e Feliz Natal!


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Tijolo é a mãe!


Tijolo é a mãe!
Silvia Britto

Muitas vezes, pego-me pensando em como a vida é esquisita. Leva e traz pessoas para o nosso convívio sem dar nenhuma explicação plausível. Só nos resta aceitar.
Fui muito bem casada por 30 longos anos da minha vida. Com esse casamento, acabei herdando alguns poucos e grandes amigos. Um deles, amigo de infância do meu então marido, deixou-me muitas saudades. Ríamos muito juntos e sinto falta do seu humor pastelão, bem do jeitinho que me faz rir até chorar.
Sempre que chegávamos a sua casa, já me cumprimentava com algo do gênero:

- Moreninha! Arrasou! Você hoje está uma mistura perfeita da Gisele Bündchen com a Zezé Macedo!

Obviamente, eu ia do Paraíso ao Inferno em questão de segundo e seguia achando-me a mais normal das criaturas. Mas não conseguia conter a gargalhada solta e gostosa que brotava em mim.
Para esclarecer um ponto que talvez tenha passado despercebido, "Morena" é um apelido carinhoso que começou na minha infância, adotado pelo meu ex-marido e por muitos amigos da época de casada.
Voltando ao texto, esse amigo também me dava sábios conselhos. Guardo um deles até hoje, com carinho para, quem sabe, usar um dia. Disse-me que, quando eu resolver escrever minha autobiografia, reserve, pelo menos, três capítulos para falar da minha delicada retaguarda de origem africana. Anotei e registrei.
Mas uma das coisas que mais me deixava ressabiada e irritada era o apelido, um tanto quanto peculiar, que ganhei dele certa feita. Conversávamos alegremente sobre relacionamentos, separações, mulheres dos outros, quando, de repente, ele me sai com a seguinte pérola:

-A Moreninha, para mim, é um tijolo!

Indignada, perguntei a razão do adjetivo um tanto quanto peculiar. Ele logo explicou. Perguntou-me se, por acaso, eu comia tijolos. Obviamente, respondi que não. Ele então completou dizendo: "Nem eu!". E a partir daí foi o que eu e sua ex-mulher tornamo-nos para ele e meu então marido: TIJOLOS!
Segui todos esses anos sentindo-me a mais assexuada das criaturas até que ontem, conversando animadamente com alguns queridíssimos novos amigos de infância, em um barzinho na night niteroiense, um deles, também dono de preciosíssimas pérolas que um dia eu conto, olhou bem pra mim e disse:

-Hum... Sei não. Você já percebeu que tijolo também tem buracos?

Caímos na gargalhada e um peso enorme retirou-se dos meus ombros! Ele está certo! Isso mesmo! E agora, quase 30 anos depois, eu posso, finalmente, responder, alto e bom som:

-Tijolo é a mãe, Maurinho!!!


domingo, 15 de dezembro de 2013

Meus "pés-na-bunda"


Meus "pés-na-bunda"
Silvia Britto

Levei muitos "pés-na-bunda" ao longo desses meus bem vividos 50 anos. Chorei muito à época que os recebi mas os guardo com muito carinho e agradeço pelos aprendizados de vida que eles me proporcionaram. Resolvi contar aqui alguns dos que mais marcaram este coração inquieto e abusado.
O primeiro de que me lembro, eu tinha apenas 5 aninhos e o "rapaz" em questão, 12! Era um menino lindo, que descia em sua bicicleta, com o peito todo cheio de talco, a ladeira da Rua de São Pantaleão em São Luis, MA. Cruel, ao saber da minha paixão, riu e me falou "Cresça e apareça, pirralha". Chorei muito, escondida, com o coraçãozinho totalmente despedaçado. Mas um dia eu cresci e voltei. Outra história que um dia eu conto. APRENDIZADO: crescer e aparecer!
Depois veio a paixão platônica adolescente pelo menino do prédio. Foram quase dois anos de sofrimento pois ele era apaixonado pela menina mais mandona do prédio, que lhe controlava os namoros e as emoções. Ela até deixou que ele me namorasse por uma mísera semana. Portanto, desse eu conheci os beijos, com sabor de chiclete de tutti-frutti. Chorei muito essa frustração ao som dos Carpenters! APRENDIZADO: não dar murro em ponta de faca!
Em seguida, o grande amor pelo menino da outra rua, lindo, moreninho qual um soberano da Índia. Cobiçado por muitas meninas, foi cair de amores juvenis por mim! Foi a primeira vez que tive uma paixão correspondida e achei ter encontrado o Nirvana quando saímos de mãos dadas do cinema empoeirado. Mas aí veio a inevitável inveja alheia e um telefonema anônimo, sobre o comportamento do meu lindo indiano, abalou minha já baixa autoestima adolescente e terminei nosso lindo namoro. Obviamente descobri toda a verdade, que havia sido vítima de inveja e crueldade das frustradas da época e fiz de tudo para reverter a situação e para que ele acreditasse em mim. Em vão. Tomei, inclusive, meu primeiro e um dos únicos porres da minha vida, desses para ficar na memória de todos que o presenciaram. Descobri, mais tarde, que ele ainda gostava de mim mas seu orgulho enorme impediu que seguíssemos o que poderia ter sido uma linda história de amor. APRENDIZADO: Acreditar em mim e nunca mais deixar minha autoestima ser abalada por anônimos, e também, que orgulho ferido de certas pessoas fogem completamente ao meu desejo e à minha vontade.
Mais tarde um pouco, veio o carinha dos bailinhos do Botafogo. Lindo! Mas também nunca me quis. Virei confidente de seu melhor amigo, que era apaixonado por mim e muito mais bonito que o tal em questão. Quando finalmente enxerguei a situação, era tarde. Meu confidente já havia desistido e partido. APRENDIZADO: Quando "um" não quer, olhe em volta. Pode haver um lindo "dois" apaixonado por você.
Daí encontrei o grande amor da minha vida, com quem fiquei casada 30 anos de minha vida e com quem aprendi o significado das palavras amor, entrega e cumplicidade. Infelizmente, depois de 30 anos o amor transformou-se e virou amizade, uma das maiores e mais fortes que tenho e com quem divido um presente lindo que é a nossa filha. APRENDIZADO: Amar vale muito à pena!
Atualmente, estou em processo de levar mais um pé-na-bunda. Esse, sutil, sem palavras diretas. São apenas atitudes de alguém que não sabe, ou não quer, amar e desconhece o significado das palavras sinceridade e cumplicidade. Não por culpa própria pois a vida não lhe foi amiga. Lutou muito e muito também superou. Mas há certas cicatrizes e vícios de comportamento que não são passíveis de mudança, infelizmente. Já falei em outra ocasiões que sinceridade é o meu bem e o meu mal. Nesse momento, colho mais um fruto decorrente dela. Chega a hora de eu entender e aceitar mais esse pé-na-bunda que, com certeza, ficará para sempre em minha memória. APRENDIZADO: ... Não sei. Ainda não descobri. Quando eu conseguir entender por que submeto-me a isso, prometo vir aqui e contar.
E bora que bora, que a vida é curta e meu rebolado, embora marcado de tantos pés-na-bunda, ainda é mais que um poema e não pode parar!


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Terei cara de otária?


Terei cara de otária?
Silvia Britto

Por favor, amigos...
Olhem bem nos meus olhos e me digam, com toda a sinceridade da alma: eu tenho cara de otária? Ou de burra? Ingênua, talvez? Porque não consigo entender a razão de, constantemente, tentarem enganar-me, abusando covardemente do meu amor e da minha entrega. Usam-me, inclusive, omitindo-me de outras pessoas e, portanto, tornando-me uma pessoa pequena e insignificante perante outrem.
Será esse o pagamento que a vida dá aos que nela se atiram de cabeça? Não acredito e não passo recibo!
Será que esses mentirosos crônicos não veem que quem perde, na verdade, são eles? Vivem em um mundo fictício, irreal, tendo que fazer malabarismos para andar com a cabeça em cima dos ombros nas ruas.
Já falei diversas vezes aqui que sou ingênua por opção. Mas recuso-me terminantemente a aceitar a alcunha de burra. Não sou. Pior ainda, sou muito perceptiva. Além disso, a vida cisma em querer ajudar-me para que as coisas apresentem-se, no seu estado real, bem na minha frente.
Há muito pouco tempo, por haver desmaiado e passado muito mal em meu trabalho, quase morro de desgosto, mais uma vez, ao deparar-me com mais uma tentativa de abuso emocional contra minha inteligência. Fiquei mal e preferi calar-me para absorver e melhor julgar o acontecido. Percorri o caminho contrário àquela cena, tentando entender onde havia me perdido pelo caminho.
Não fiquei mal por estarem mentindo para mim. Dessa fase já passei. Mas por pena de ver uma vida escondida, sorrateira e com tendência à solidão e ao desamor, esvair-se em mentiras desnecessárias.
Tenho pena dos que não sabem amar. Esses, constantemente acham que a vida constitui-se mais de perdas do que de ganhos. São eternos perdedores. Tristeza.
Mais uma vez estou só. Ou será que já estava só e não sabia? Ainda bem que tenho amor e força de vida suficientes para manter minha cabeça erguida, meu passo firme, minha voz sem sussurros e meu sono tranquilo, povoado de sonhos reais.
Para terminar e esclarecer mais uma vez, não confundam força de luta e amor verdadeiro com falta de autoestima e burrice. Só consegue amar de verdade, quem se ama e se aceita acima de tudo.
Estou triste, mas vou em frente, sorrindo. Estou me sentindo usada e traída, mas sigo, acreditando no amor. Fui enganada, mas rumo adiante, confiando e me entregando. A vida não para para os que dela se nutrem com honestidade. Infelizmente, não é o caso dos eternos mentirosos, doentes da alma, que não conseguem colocar seu rosto no mundo e gritar: "Ei! Eu sou feliz!"

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Outono


Outono
Silvia Britto
  
Hoje estou aqui, diante da tela, movida por uma grande solidão.
Acho que estou naquela fase em que a vida está se transformando ao meu redor e não tenho o menor poder de interferir no seu curso.

Coloco uma música, fecho os olhos e imediatamente sou remetida a uma época muito distante no calendário, mas que, na minha cabeça, parece que acontecia ontem. Tenho sonhos de encontrar um grande amor, de conhecer o mundo inteiro... Não consigo aceitar que isso não me pertença mais. 

Que saco! Sei que essa é a pior maneira de envelhecer e quem me escuta falar assim, logo pensa que sou uma anciã de 80 anos! Não é bem isso... É pior! É aquele momento chato de transição em que passamos do verão para o outono da existência. 

Claro que tudo deve se adequar a essa nova realidade. As roupas, a maquiagem, a cor do esmalte, a altura dos saltos, o comprimento das saias e do cabelo, tudo deve estar de acordo com essa nova estação que se anuncia. Mas morro de pena de deixar tantas emoções para trás assim. Saudades do brilho dos meus cabelos e da minha pele.

Por um lado, até já consigo vislumbrar algum charme nas cores outonais. Há uma beleza clássica e serena em seus tons de dourados e marrons... Mas gosto tanto dos vermelhos e amarelos! Que coisa difícil! Parece que tenho mesmo que aceitar que não sou eterna e que a morte é uma certeza. 

Nunca tive medo de morrer, só não sabia que a morte começa enquanto ainda vivemos. Tento não pensar assim, não sou macabra. Mas como não sentir que estou saindo do jogo quando ando pelas ruas me sentindo invisível? Quisera ter tido essa consciência aos meus vinte e poucos anos. Teria aproveitado muito mais... Será?

Escrever tem sido uma maneira de deixar um testemunho de que existi. Fico imaginando que num tempo bem lá no futuro meus netos lerão essas palavras e conhecerão um pouco mais desta pessoa que então chamarão de vovó. Será que os terei? Será que algum deles se reconhecerá em mim? Ei! Vocês aí no futuro! Escutem o que uma pessoa que já passou por isso lhes aconselha... Ei!! É... Não adianta, estão todos muito ocupados em não perder tempo sabe lá de quê e atrasados para chegar sabe Deus aonde.

Também passei, e ainda passo, por isso. Só que já sei que a pressa só vai me levar a lugar nenhum. Mesmo assim, ainda não internalizei que preciso dosar o passo, que é melhor desacelerar e curtir o caminho que me foi destinado. Acho que é mesmo inevitável gastar muito dessa energia vital atirando onde não se vê enquanto somos jovens. Mas espero que vocês aí do futuro tenham pelo menos a capacidade de guardar em um cantinho dos seus pensamentos que a vida não é um plano que fazemos e conquistamos da maneira que o escrevemos.

Planos só existem para trazer frustrações ao não realizá-los. Prazos apenas servem para trazer angústia. Porém, são estratégias necessárias para ir seguindo o curso. A vida é como um rio que nos transporta pelos seus redemoinhos e correntezas. Às vezes agitado, às vezes calmo. Às vezes ensolarado, às vezes com muitos raios, trovões e tempestades que parecem anunciar o fim de tudo. Não se preocupem. Nesses momentos, a dica que fica é: não se desesperem. Não se debatam, não tentem remar contra a maré. Apenas tentem flutuar, pois com certeza a tempestade passará. É o que estou tentando fazer neste exato momento.

Pronto! Estou melhor. É a velha máxima do "Escrevo, logo existo." Agora é dormir e pedir à implacável Mãe Natureza que me traga logo essa tal de maturidade, item indispensável para enfrentar as mudanças com bom humor, alegria e otimismo. Até que vai ser bom sair desse sol escaldante que tanto me queima. Uma sombrinha está me parecendo até bem agradável. Também vi um vestido verde escuro que acho cairá muito bem com a cor de meus olhos e meu novo batom. Mas deixa pra amanhã... Amanhã eu cuido disso. Hoje vou tomar um bom vinho tinto e deixar que alguma linda música faça uma massagem no meu coração e me coloque pra dormir...

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Alô torcida do Flamengo! Aquele abraço!


Alô torcida do Flamengo! Aquele abraço!
Silvia Britto

Incomodada com as constantes críticas à minha amada e Gloriosa torcida, principalmente em relação ao seu número e à sua qualidade, é que resolvi escrever este pequeno texto dizendo o que sinto a esse respeito. Como essas críticas, normalmente, vêm da imensa torcida rubro-negra, é a ela que direciono minhas palavras.
Inquestionável que uma torcida ajuda o time. E muito. Porém, está mais do que provado que tamanho não é documento. Fosse assim, todos os títulos brasileiros, quiçá mundiais, seriam abocanhados pela torcida do Flamengo, que talvez os cedesse, raramente, à torcida corintiana. Entretanto, não é isso que se vê acontecendo.
Obviamente, por ser uma das maiores torcidas do mundo, a do Flamengo sempre terá de tudo muito. Maior quantidade de ladrões, e de gente do bem... Maior quantidade de mulheres feias e de mulheres lindas... Maior quantidade de arrogantes e de pessoas de bom senso. Maior quantidade de torcedores apaixonados e de torcedores de "modinha".
Mas volto a dizer que torcida não ganha jogo. Seria bom que a imensa torcida flamenguista conseguisse parar de esconder-se atrás de seu número e pudesse competir na qualidade de seus jogadores. Infelizmente, não é o que acontece. Com um time sofrível, consegue chegar à Libertadores. Vão falar dos 4 x 0 contra o meu amado Fogão? Sinto muito mas tenho que discordar que foi por superioridade técnica. Aquela inexplicável derrota, até mesmo para amigos flamenguistas, deveu-se unicamente à incapacidade do Botafogo de manter-se em pé em campo. Espero um dia conseguir desvendar esse mistério. Portanto, não foi glória do time do Flamengo, foi incompetência do meu querido Glorioso.
Mas futebol é assim mesmo. E tenho que concordar que a minha amada Cachorrada é muito crítica e exigente. Quando quer, faz o Maraca virar um sonho de encantamento, como ontem. Porém, revoltar-se com as má fases do time não é uma qualidade apenas de Botafoguenses.
Aliás, lotar o Maraca em todos os jogos, já que é uma das maiores torcidas do mundo, é mais do que obrigação para os flamenguistas. Mas isso é coisa que não vi acontecer. Vi estádios vazios na maior parte dos jogos, cheios apenas quando havia chance de algo de bom acontecer. Como em todas as demais torcidas. Desse realmente todo esse apoio, esgoelado aos quatro ventos por seus componentes,  ao time, a torcida do Flamengo faria dele um dos times mais ricos do mundo.
Portanto, amigos flamenguistas, não me venham falar em tamanho e paixão. Proporcionalmente falando, vocês estão muito aquém da sua obrigação. Reiterando, tamanho importa, e muito! Mas não é, e nunca será, documento. Goza melhor, quem sabe usar o brinquedo que, neste caso, é a bola!

Alô torcida do Flamengo! Aquele abraço!

domingo, 8 de dezembro de 2013

Ai Ei Eiô, Mamãe Oxum!


Ai Ei Eiô, Mamãe Oxum!
Silvia Britto

Hoje é dia 8 de dezembro e, mais uma vez, lá vem a ateia assumida falar das encantadoras entidades da Umbanda. Mas é que Oxum, Nossa Senhora da Conceição para os católicos, tem um significado muito especial para mim. Desde muito pequena, por intermédio de uma amiga, adepta da Umbanda, que desenvolvi um carinho especial por Oxum e pelo que ela significa. Petulantemente, acho que me identifico com ela e resolvi "adotá-la" como mãe, mesmo sem saber se ela gostaria de assumir esse posto.
Esse meu encantamento acabou por contagiar minha mãe e era sempre à Conceição que ela pedia que olhasse por mim e me protegesse com seu manto que, por vezes debochei, dizendo à mamãe que o manto trabalhava tanto que já era hora de lavá-lo!
Sempre li muito sobre Oxum e digo-lhes agora porque dela me apoderei como exemplo e a razão da minha admiração.
Oxum é uma mulher forte, que conseguiu impor-se em um mundo de Orixás machos. É a deusa da fertilidade, daí sua ligação com Conceição, e dos rios e cachoeiras. Seu elemento, assim como o meu, é a água.
É uma mulher que ainda tem um quê de adolescente, coquete, maliciosa, ao mesmo tempo em que é cheia de paixão e busca objetivamente o prazer. Também tem como um de seus domínios, a atividade sexual e a sensualidade em si, sendo considerada pelas lendas uma das figuras mais belas do universo dos orixás.
Oxum corresponde também à deusa grega Afrodite e ser abençoada por ela significa que a mulher sentir-se-á plenamente à vontade com sua sexualidade e beleza, noção que ela adquire ao mirar-se no espelho que sempre trás consigo. É muito vaidosa mas, acima de tudo, em todos os seus relacionamentos, a mulher-Oxum coloca o seu coração.
Sua beleza física e interior podem abrir-lhe muitas portas para o mundo, inclusive as da inveja, o que poderá fazer a mulher-Oxum, por diversas vezes, duvidar do seu real valor.
A deusa-Oxum também herdou as qualidades guerreiras de Artémis, deusa grega da guerra, o que desperta-lhe um amor intenso pela liberdade, pela independência e pela autonomia.
Os ditos filhos de Oxum, identificam-se com as águas de um rio, sempre preferindo contornar habilmente um obstáculo a enfrentá-lo diretamente, chegando mesmo a serem chamados de teimosos e obstinados.
Os filhos de Oxum tendem a ter um enorme espírito maternal e tornam-se protetores e apaixonados pelos bebês humanos e pelos animais.
Sinceramente e sem falsa modéstia, que não sou disso, sempre que releio a história de Oxum, parece-me estar lendo um relato sobre a minha própria vida. Ela também é petulante e corajosa em assumir-se, assim como eu. Guerreira e teimosa, assim como eu. Maternal e sensual, assim como eu.
Finalizando, aqui vai uma pequena canção, ponto de Umbanda, que aprendi nas minhas incursões aos terreiros em minha adolescência, e que encanta-me, principalmente, pela sua simplicidade:

"Eu vi Mamãe Oxum na cachoeira,
sentada na beirada do rio,
colhendo lírio, lírio ê,
colhendo lírio, lírio á,
colhendo lírio pra enfeitar nosso congá."

Espero não tê-los entediado com tantas informações mas é que Oxum, para mim, é mais que uma deusa. É uma lenda que resolvi adotar como mãe e que me traduz como nenhuma outra.
Ai, ei, eiô, Mamãe Oxum!