quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A Urca se despede de mim


A Urca se despede de mim
Silvia Britto

Estou com o coração apertado.
Em poucos dias estarei deixando a linda Urca, lugar a que chamei de lar pelos últimos dez anos de minha vida. Infelizmente, não mais fui capaz de manter a vida no Paraíso.
Resolvi sair para um passeio de despedida. A tarde estava nublada, para combinar com o estado da minha alma.
Passei primeiro pela pracinha, onde por inúmeras vezes vi meu bebê brincar e onde comemoramos seu sétimo aniversário. Foi um luxo, aquela festa. Chamou-se "Pintando o sete na Urca" e durou 24 horas! Com direito a jantar, dormida, café e almoço. Obviamente, também incluído um passeio à pracinha querida.
De lá, segui até a Praia do Forte, frequentada apenas por aqueles que conseguiram o famoso passe, por conhecer algum militar. E aí vocês me perguntam: e você conhece militares? Não! Mas caí nas graças do Sargento Cândido, que me abonou a entrada e logo em seguida soube que também haveria uma filha e um marido. Boa praça, o Sargento.
Ao lado, a mureta do Bar Urca, pouco ligando se trata-se de uma segunda ou de uma sexta-feira. Sempre lotada de gente de todas as tribos, degustando seus pastéis e a cerveja gelada de um dos bares mais populares do Rio de Janeiro.
Mais à frente, o Garota da Urca. Ali passei inúmeras madrugadas da vida, tomando chope para tentar aquecer meu coração solitário em algumas noites tristes de verão. Andando um pouco mais, passando da antiga Tupi e do famoso Cassino,o Belmonte, bar recente na área mas nem por isso menos frequentado.
Dei a volta pela rua de dentro, Marechal Cantuária, e retornei pela orla. Passei da igrejinha de Nossa Senhora do Brasil e, automaticamente, comecei a olhar para cima, na esperança vã de ver o meu rei, Roberto Carlos, na janela de sua cobertura. Em dez anos de Urca, nunca tive o prazer de cruzar com o olhar do rei. Coisa rara para os moradores daqui. Mas essa sou eu. Uma pessoa rara e petulante.
Só que, dessa vez, a Urca também quis despedir-se de mim. Ao olhar para cima, lá estava ele, o rei Bebeto em pessoa, na sacada de sua varanda! Parei, encantada. Fiquei ali alguns segundos degustando aquele momento. De repente, o rei me encara. Sem saber o que fazer, ergui o braço e esbocei um trêmulo aceno. Ele acenou de volta e sorriu. Quase morri, sem querer respirar para não perder o momento. Mas a força da vida me salvou mais uma vez e me fez seguir adiante, com o coração agora completo de tudo que eu poderia desejar da Urca.
Quase chegando de volta a minha casa, começou a chuva prometida. E foi o que faltava para completar o meu passeio de despedida. A chuva uniu-se às minhas lágrimas, como se a limpá-las de meu rosto. Eu não estava de vestido branco, era azul, mas mesmo assim, lembrei-me da música do Jorge, quando ele ainda era só Ben, e fui para o meio da rua, a girar, que maravilha, a girar!
Segui cantando o resto do caminho com a certeza que me faltava: vou sair da Urca, mas a Urca nunca sairá de mim. E bola pra frente que a vida não para e o futuro pede passagem!

domingo, 27 de outubro de 2013

Meu pequeno grande amor

Meu pequeno grande amor
Silvia Britto

Meu pequeno grande amor hoje se foi. Era muito mais que um amor. Era um amigo, um filho de coração, um cúmplice. Meu querido Toyzinho.
Seu coração cresceu demais e a demanda foi grande para o pequeno pulmão. Era um coração enorme, muito amor, em um corpo miúdo que não cansei de abraçar, afagar e aninhar. Vou ficar com saudades de suas lambidas. De seu latido possessivo quando qualquer um de mim se aproximasse. De sua alegria quando pressentia minha chegada e de sua frustração ao deduzir minha partida.
Eu não sabia que doía tanto. Acho que nunca perdi um amor assim antes, que me foi dado de graça, sem nada me cobrar ou de mim esperar. E nosso amor foi instantâneo, desde o primeiro momento que fui trazida até ele. Nos apossamos um do outro e criamos um elo que ninguém mais entendia a não ser nós dois. Quantas lágrimas ele lambeu-me da face. Quantas lambidas deu-me no corpo. Quanto amor a mim dedicou. Totalmente incondicional. Nem era eu a responsável direta pelo seu sustento. Mas sei que ele também sentia minha paixão absoluta.
Hoje, ele passa a ser apenas uma lembrança. Uma dessas que nunca mais serão esquecidas. Toy será eterno enquanto dele se tiver lembrança.
Não consigo parar de chorar. Meu coração está destruído, desnorteado sem a tua presença, meu grande pequeno amor. Se você puder me ouvir, de onde estiver, lamba este coração que não quer desapertar. Brinde-me com suas melhores lembranças. Tatue minha recordação com seu latido querido.
Toy, amo você para sempre. Muito obrigada por fazer-me sentir tão especial.
Beijo, Totoyzinho. E descanse em paz, meu pequeno grande amor.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

"Se"

Estava estudando e, para não chorar de raiva e frustração, resolvi escrever...


"SE"
Silvia Britto
                                  

Não aguento mais essa insuportável partícula "SE"!!!
É "SE" apassivador. É "SE" índice de indeterminação do sujeito. É "SE" reflexivo.
É "SE" recíproco... Sem falar do "SE" condicional.

Quando penso que estou apassivando, estou indeterminando.
Quando penso que estou indeterminando, estou apassivando.

Haja paciência!!

Quando vejo, na questão, o danado do "SE" despontando, como se rindo da minha cara apavorada,
já me dá uma vontade enorme de chutar qualquer das opções. Ou de marcar a resposta que acho ser errada.
Por ironia da Gramática, a errada para mim é sempre a certa para a banca!

Como é possível tremer ante duas letrinhas que parecem tão insignificantes?
É que, na verdade, as danadas são poderosas.
Já parou para pensar?
O certo fica incerto.
O ativo torna-se passivo.
E a pobre da pessoa perde a sua exata definição só pela sua presença na oração!

Argh!!! Que irritação!!!

Confesso não saber mais o que fazer com essa partícula danada.
Como aprendê-la?
Como apreendê-la?
Não foi por falta de explicações.
Tanto já perguntei a bons mestres...
Tantas dúvidas já me foram esclarecidas por professores dedicados...

Acho que é um defeito de fabricação do meu cérebro.
Nasci com a capacidade de entendimento do "SE" avariada.
Será que é por isso que não tenho paciência quando me impõem condições?!?!

Pelo menos "SE"...
Precisa-"SE" de...
Conserta-"SE" isto ou aquilo...
Abraçam-"SE"...
Amam-"SE"...
Matam-"SE"...
Arranca-"SE" cabelo!!!

Quer saber? Eu me rendo!
VIVA O CHUTE!!!
Danem-"SE" os examinadores!!!!!!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A madrugada chorou


A madrugada chorou
Silvia Britto

A madrugada chorou
Chorou o choro dos amores mal correspondidos.
Dos desejos não saciados.
Das crianças mal alimentadas

Chorou um choro doído.
Em que nada parece fazer sentido.
Em que tudo é apenas um grande vazio.
Em que a vida é tão somente uma grande ilusão.

E enquanto a noite chorava, nós, mortais, apenas observávamos.
Impotentes em nossa insignificância.
Seres indefesos, à mercê do destino implacável.
Pequenos corações, clamando por piedade.

Mas a chuva passa.
Tudo passa.
Só não passa esse choro da vida.

Choro danado, madrugada molhada.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Anjos do Saber

Anjos do Saber
Silvia Britto

Queridos mestres,

Esta vossa aluna, vez por outra, tem delírios de escritora.
Portanto, resolvi escrever-lhes pelo Dia dos Professores.

Gostaria de mandar uma mensagem a todos os professores maravilhosos que já passaram pela minha vida. Infelizmente, muitos se perderam, como pó de giz, ao longo dos anos.
Felizmente, muitos ainda estão presentes. Vocês são alguns deles. Que bom. Através de vocês vou poder exteriorizar um pouco a minha gratidão e admiração por essa profissão tão mágica. Preferi submetê-los a meus garranchos literários a simplesmente mandar um cartão qualquer. Peço-lhes perdão pela audácia, mas esse é um dos meus temperos preferidos da vida. Espero conseguir fazer com que leiam com seus corações, perdoando meus devaneios literários e minha ousadia.

Quando ainda muito pequenina, ao ser perguntada o que gostaria de ser quando crescesse, respondia, sem sombra de dúvidas:

- Miss Maranhão e professora!. 

Quis o destino que eu não realizasse nenhuma das minhas vocações. 
A primeira por pura injustiça e a segunda, por falta de oportunidade ou vocação.
Coisa mais linda e generosa ensinar! 
Nada mais engrandecedor do que dividir o saber. 
Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
De quebra, ainda ajudam a realizar sonhos!


Ser-lhes-ei eternamente grata por toda a dedicação e carinho a mim dispendados.
Parabéns a todo esse meu exército de Anjos do Saber e que a vida saiba retribuir-lhes por todo esse amor, já que nossos governantes não parecem haver aprendido muito bem essa lição.
Beijo enorme em seus corações.

Feliz Dia do Mestre!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Zé Turé





Zé Turé
Silvia Britto

Zé Turé era mais um dos milhares de afilhados de minha vó Dedé.
Antes de continuar a falar de Zé Turé, preciso deixar uma coisa bem clara para que os desavisados não continuem a ler. Não sou, e nem pretendo ser, esse tal de “politicamente correto”, que anda tão em voga. Prefiro ser a velha e brega “emocionalmente amorosa”. Portanto, não esperem de mim termos como “afrodescendente”, “adiposamente favorecidos” e afins. Prefiro dizer “negona gorda”, pois sei que, em meu coração, essa negona é tão amada e respeitada quanto a “branquela magrela”, sacaram?
Esclarecimento feito, voltemos ao Zé Turé. Mais um dos milhares afilhados de minha Vó Dedé espalhados por São Luis. Neguinho preto tiziu como dizem por aqui. Apaixonado por Dona Dedé, sempre aparecia por volta da hora do almoço para saber em que poderia ajudar a “dinda”. Quase sempre cabia-lhe a função de ir  à venda comprar as duas cervejas diárias que Dedé religiosamente tomava desde sua mocidade.
Certo dia, lembro ainda como se fosse hoje, estava eu, sentada na sala assistindo a desenhos animados na TV, esperando o resultado do cheiro maravilhoso que vinha da cozinha concretizar-se. Como se fosse mágica, “puft”, o som e a imagem da TV escafederam-se. Gritei desolada. A primeira a acudir-me foi Gracinha, outra das milhares de afilhadas de Dedé. Ao ver a razão de minha decepção, gritou, aflita: “D. Dedé! Acuda! A “bicha” está sem voz e sem feição!”.

Zé Turé aparece correndo, logo em seguida, numa tentativa de sanar a minha grande decepção. Olha para a TV com seus olhos pretos qual jabuticabas, coça um pouco a cabeça, põe a mão no queixo, vira a cabeça para um lado e para o outro, faz cara de sabido e solta seu ilustre diagnóstico: “VIXI!”. Sai logo em seguida em direção à venda para buscar o refresco de malte da Vó, deixando-nos todos a gargalhar até a alma não aguentar mais. Exatamente como faço agora!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Os enrolados

Os enrolados
Silvia Britto

Já percebi que, invariavelmente, todos os meus amigos da faixa etária dos 45 aos 65 anos de idade, que já foram casados e separaram-se, quando perguntados sobre seu estado civil, levam alguns segundos para responder. Costumo perguntar se são casados, solteiros, namorados, noivos, amancebados ou tico-tico no fubá e eles ficam sempre na dúvida.
A resposta mais comum parece ser: ENROLADOS!
Também eu me incluo nessa turma. Como uma boa mulher moderna, também estou "enrolada". Não sei se estou namorando, "ficando", "pegando" ou "enrolando" meu "enrolado".
E isso é bom ou ruim? Não sei! Como tudo na vida tem seus prós e contras. Obviamente que adoro ser livre, não pertencer a ninguém e só ficar junto por estar realmente com vontade. No entanto, há um lado romântico meu, que quer fazer planos de futuro, dizer que tal pessoa é meu namorado, tirar fotos em lugares idílicos e românticos e perpetuar esses momentos de felicidade a dois.
Os "rolos" não parecem ter passado nem futuro. Muito mal carregam um presente. Sou mais pela liberdade do corpo e cumplicidade da alma. Meio hippie mesmo. Mas o que vejo por aí é exatamente o contrário: prisão de corpos acomodados e preguiçosos e traição de almas.
Com esse papo de redes sociais, as pessoas têm quantos "rolos" e "enrolados" quiserem. Por muitas vezes o rolo é tanto que se perde o fio do novelo. Claro que os rolos podem acabar por desenrolar-se, para bem ou para mal. Mas, geralmente, causam um tremendo desgaste às mentes dos envolvidos.
Sei não. Acho que não gosto disso. Enquanto estamos no meio desse emaranhado sem fim, a vida parece passar ao largo, como a rir-se de nós, piões humanos, que não sabemos de onde viemos ou para onde vamos com nossas relações emocionais. E isso cansa demais.
Você está todo enrolado? Pois é... Eu também!