domingo, 29 de setembro de 2013

Os que amam demais


Os que amam demais
Silvia Britto

Acordei com o coração apertado.
Não pela derrota, pois isso faz parte de qualquer campeonato.
Já disse antes e agora repito: títulos de campeonatos me interessam sim, mas não são meu principal objetivo. Não são eles que encantam e enchem de orgulho o meu coração. Afinal, o Botafogo é o ”Glorioso” e não o “Tituloso”. Coleciono glórias, não títulos.
Estava encantada ao sentir que meu time do coração havia finalmente entendido o valor da estrela que tráz no peito e reinava lindo e feliz pelos gramados. Sua linda estrela deixava para trás um belo facho de luz, que a todos hipnotizava, a cada partida.
Mas algo de estranho se deu. Como que por mágica, a atitude do time mudou. Uns julgam o técnico, outros, a idade do craque, outros até ousam culpar o destino. Sinceramente, não sei o que há e me abstenho de julgar quem quer que seja. O momento agora é de dar apoio ao amante confuso. Dar amor à linda bandeira.
Sei que muitos Alvinegros agora me criticarão e dirão que sou uma boba ao apoiar um time assim, desmilinguido. Não os culpo por pensarem assim. Mas cada um ama do jeito que sabe. O meu amor por essa estrela é incondicional. Isso significa que, perdendo ou ganhando, TE AMO FOGO!
Estarei  presente em todos os jogos que puder. Não se trata de otimismo. Trata-se de suporte. Vibrarei a cada jogo e continuarei portando, com orgulho e altivez, a linda estrela que me escolheu como amante.

“ O Botafogo não é para os óbvios. Muito menos para os normais. É para os que amam demais.”

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

São Cosme e Damião


São Cosme e Damião
Silvia Britto

Dia 27 de setembro. Dia de São Cosme e Damião.
Ah!! Quantas recordações isso me trás. Moleca, ia de rua em rua, com uma sacola de plástico em punho, recolhendo os saquinhos de doces pela vizinhança. Sempre tentava pegar dois, um para a minha irmã, Lilica, que, por capricho da vida, só podia assistir à festa pela janela.
Havia sempre a notícia que vazava;
- Dona Zulmira do 702 vai distribuir às 10 horas!
- Seu Toinho, na Santo Amaro, tá distribuindo agora!
E lá ia eu correndo, descabelada e feliz, de porta em porta, colecionando saquinhos de guloseimas, muitas vezes de origem duvidosa quanto a sua gostosura.
Era quase uma competição entre a molecada - quem encheria mais a sacola?
Ao final do dia, chegava a minha casa suja, suada e esbaforida da molecagem de dia inteiro. Portava comigo o meu troféu, uma sacola lotada de marias-mole, cocôs-de rato, suspiros, goiabada, balas Juquinha, pirulitos do Zorro (lembram dele???) e afins, nem sempre com seus nomes identificados.
Um pouco mais velha, tive a experiência de ter uma melhor amiga que "recebia" entidades da Umbanda. Nunca conseguirei explicar aquilo. Mas aí é outra história. Um dia eu conto. Voltando às crianças, minha amiga "recebia" a Mariazinha da Beira da Praia. Uma menina levada da breca que cismava em entupir-nos de bolo empapuçado de guaraná! Não é que era bom? Era dia de festa no Centro de Umbanda, e uma bagunça linda reinava, feita por adultos que se deixavam levar pela fé.
As crianças de hoje não sabem mais o que é ser livre e feliz. Lamento. Não se distribuem saquinhos de São Cosme e Damião em shoppings. Ainda bem que vivi em uma época em que as ruas também eram das crianças para brincar de queimado, carniça, pique-bandeira e soltar pipas coloridas.
Saudades da molecagem vadia.
Salve Cosme, Damião, Dom Um!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O anjo da lama





O anjo da lama
Silvia Britto

Você se foi tão rápido quanto veio. Lembro-me de ter acontecido assim com a única paixão que me confessou haver tido na vida. Já disse antes e volto agora a dizer: você veio para iluminar meu coração e mostrar que as luzes do caminho só se apagam se assim o permitirmos.
Fui cortejada e paparicada por um verdadeiro gentleman de alma. A poucos pude dar essa qualidade. Cuidou de mim em um momento muito difícil e me deu de presente o inesquecível. Apenas por sua gentileza e generosidade foi possível deparar-me com tanta beleza em forma de liberdade, mato e lama. Foi uma lama libertadora, a que você me apresentou.
Cantamos juntos, encantamo-nos juntos com a paisagem rústica, ficamos sujos de lama, dançamos, tomamos vinho e rimos para valer, como duas almas irmãs que precisavam rever-se para reafirmar seus laços de amizade, amor e respeito.
Hoje venho aqui dizer adeus. Obrigada, meu anjo. Vou carregá-lo para sempre no meu baú de lembranças. Impossível esquecer tamanho carinho e gentileza. Eu precisava achar-me merecedora de tanto cuidado.
Siga em Paz o seu caminho, continue a tocar com seu coração todos que dele precisarem e que o mereçam. Um dia ainda nos reencontraremos, pois me deves uma estrela cadente. Você é lindo, seu astral é alto, e sua alma de uma gentileza ímpar. Obrigada por tudo, meu anjo da lama e da luz. Te amo para sempre. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Encontre a tampa de sua panela!

Encontre a tampa de sua panela!
Silvia Britto

Boa noite, caro ledor!

Você, que se encontra aí sozinho, abandonado, com o coração despedaçado por achar que nunca conseguirá conquistar aquela gatinha da Zona Sul que não sai dos seus pensamentos...
Você, que atende pela alcunha de Mestre-fofo-de-Caxias,  não fique triste assim!
É com grande emoção que nosso programa, Encontre a Tampa de Sua Panela, lhe oferece, em nome daquela que você julgava nem saber da sua existência, uma mensagem de fé e esperança.
Ela, que atende pelo singelo pseudônimo de Charmosa da Urca, lhe envia uma mensagem de esperança:

“80ção

20ver pois

100você não posso viver.”

Ela também pede para lhe dizer que:

“Se Deus fosse fazer um mostruário do trabalho dele, você estaria na capa.”

E que sempre que lhe vê, usando a sua camisa green-natureza-morta, pensa:

“Se verde é assim, imagina maduro!!!”

Por isso, educador charmoso de Caxias, não perca as suas esperanças...
Pode ir preparando a sua colher que o seu amor está dando sopa.
E enquanto aguarda, ansiosa pela sua chegada, lhe oferece esta singela canção:


E o programa se despede por aqui, com a certeza de haver cumprido sua missão de
unir as tampas às suas panelas, da Zona Norte à Zona Sul, enquanto houver fogo no fogão.
Enquanto houver esperança, haverá panelas a serem tampadas!
Persista! Nunca desista!

Bom noite e até o próximo:

Encontre a tampa de sua panela !

domingo, 22 de setembro de 2013

Jardim profícuo

Jardim profícuo
Silvia Britto
 
Tudo que a vida me dá é certo. Nunca reclamo de nada. Momentos tristes têm seu valor. Sem eles, não conseguiria dar tanto valor à minha constante alegria. Nesse imenso campeonato, que é existir, somos todos vencedores. E qualquer campeonato é feito de batalhas. Ninguém passa pela vida invicto.
Parece loucura, mas saboreio cada tristeza como se fosse também, uma vitória. É quando estamos tristes que crescemos. Felicidade, normalmente, é apenas um momento para desfrutar do que plantamos quando estávamos tristes. Felicidade não tráz crescimento. É apenas o momento de regojizar a alma com o fruto de nossa colheita. O que seria da terra se não fosse a chuva? O que seria do sorriso sem a lágrima?
Felizmente, planto muito. Meu jardim é profícuo. Nele há espaço para tudo. Balanços para as brincadeiras, cachoeiras para a lavagem da alma, esconderijos para reflexão, pista de dança, pequenas alcovas para fazer amor e um espaço sem fim para guardar lembranças e receber meu exército de anjos.
Falando em exército de anjos, essa é a principal riqueza do meu jardim. e orgulho-me de perceber que esse exército só faz crescer. A cada dia que passa, há novos anjos lindos, prontos para lamber meus olhos ao primeiro sinal de uma lágrima. Isso me faz imensamente orgulhosa. Planto muito mas acabo recebendo muito mais do que sou merecedora.
Este texto é apenas uma maneira de agradecer a esse lindo exército. Obrigada meus anjos. Obrigada meus lindos amigos. A vida segue como sempre, linda e ensolarada. E eu? Ahhh! Olhem para mim seguindo, moleca e sem noção, com meu rebolado, que é mais que um poema!


sábado, 21 de setembro de 2013

Joelho ralado, coração magoado


Joelho ralado, coração magoado
Silvia Britto

Hoje não acordei bem. A vida me empurrou da cama às cinco horas da manhã para ver o sol nascer. Coração apertadinho em um canto do peito. Como é de costume ao me sentir assim, escrevi. Publiquei. Rodei pela casa. Pela janela vi que a manhã estava linda. Resolvi que nada melhor do que a água salgada do mar para diluir minhas lágrimas e torná-las insignificantes diante da grandeza azul.
E lá fui eu. Os óculos escuros escondiam as lágrimas teimosas. O dia estava alegre, apesar de meu peito apertado. Crianças correndo, namorados de bicicleta, sol realçando o azul do mar e o Redentor, como sempre, braços abertos sobre a Guanabara.
Mas é claro que isso não poderia dar certo. Há momentos em que é melhor recolhermo-nos a nosso canto e esperar a ressaca passar. Cheguei à praia e, antes de colocar os pés na areia, descendo uma pequena rampa de cimento que me levaria ao mar, estabaquei-me de uma forma que até o Carequinha ficaria com inveja.
Do joelho, começou a jorrar o que parecia para mim uma cascata de sangue. Ato contínuo abri um berreiro de dar dó. Pessoas aproximaram-se e tentaram me ajudar. Lavaram meu joelho com água gelada, abanaram-me, disseram-me palavras de consolo. Mal sabiam elas que a dor maior vinha do coração. O sentimento era de vergonha, humilhação e dor. Mas o que chorava era o coração.
A menininha desavergonhada que mora em mim não se intimidou e chorou até cansar. A mulher, apenas assistia, impotente na sua tristeza.
Mas cansei e parei de chorar. Levantei-me e fui, com o rebolado que é mais que um poema, um tanto quanto capenga, até o mar. A esperança era de que o sal fizesse o joelho arder tanto que o foco sairia do coração. E assim foi. Ardeu e queimou. Gritei e chorei. E finalmente a dor pareceu dar lugar a uma dormência reconfortante. Fiquei ali por alguns minutos, boiando ao sabor das ondas e olhando o céu. Esse continuava azul em sua inabalável infinitude. E pouco a pouco as coisas foram tomando suas devidas proporções. Saí da praia, comprei um picolé de limão e voltei pra casa pensando: saudades do tempo em que um mertiolate encarnado e ardido curava tudo.

Solteirinha da Urca

Solteirinha da Urca
Silvia Britto

Cansei de ser sozinha. Por isso sou solteira.
Só, sozinha, avulsa, sem ninguém, solta na vida.
Esse negócio de amar dá muito trabalho!
Minha alma é vadia, livre e solta. Meu coração, é leal e cúmplice.
E alma e coração entendem-se maravilhosamente nesta aparente ambiguidade.
Mas a cumplicidade da emoção é uma coisa que tem que vir naturalmente.
Nunca cobrei sentimentos de alguém e detesto cobranças.
Odeio chantegens emocionais. Não negocio com terroristas.
Tenho meu tempo para resolver as coisas do meu jeito.
Sempre fui uma pessoa extremamente responsável pelo que cativo e não gosto de ser colocada contra a parede. Cuido muito bem de quem bem me quer.
Sentimento, amor, entrega, cumplicidade, carinho, cuidado...
Essas são palavras que fazem parte da minha religião.
A maioria das pessoas não me alcança e julga-me ingênua ou devassa.
Não as culpo por esse julgamento. Sou mesmo tudo isso e mais um pouco.
Implorar amor nunca foi o meu feitio.
Gosto de pássaros livres que optam por pousar ao meu lado.
Estar solteira não significa estar procurando. Estou esperando.
Levando minha vida com toda a honestidade da minha alma e esperando quem me entenda.
Ou melhor, quem me aceite, pois nem mesmo eu procuro me entender. Isso é perda de tempo.
Viver é não ser entendido.
Como li um dia por aí, ser solteira é um estado de espírito. É não ter nada planejado.
Amor não é planejável. Mas exige cumplicidade. Exige confiança. Exige falta de pudor.
Espero por quem queira ser solteiro ao meu lado.
Não vou ficar perdendo tempo procurando a outra metade da minha laranja.
Vou é pegar a minha metade e fazer uma caipirinha! E saboreá-la, bem ao meu estilo, com uma pitada de molecagem e irreverência.
E lá vou eu, pela vida afora, com meu rebolado que é mais que um poema...
Soltinha que nem arroz de festa!