sexta-feira, 12 de julho de 2013

Desabafo


Desabafo
Silvia Britto

Sem sono e deprimida...
Ficar doente não é bom, mas ficar doente sozinha é muito pior.
Sensação de abandono, de descaso.
Sinto-me como se fosse inapropriada.
Será isso o que as pessoas chamam de manter sua individualidade?
Individualizar os sentimentos, as carências, os afetos?
Realmente, às vezes, acho que não caibo direito nesse mundo.
Sou do time da cumplicidade, do companheirismo e da entrega total.
Óbvio que há coisas que escondemos até de nós mesmos e todos temos segredos.
Mas a minha essência está aí, exposta. Isso é meu bem e meu mal.
Há alguns anos, desisti de viver só de migalhas, pedaços incompletos e pessoas de quem eu não consiga encaixar todas as peças de seus quebra-cabeças.
Obviamente que, quanto maior a intimidade, mais peças há para serem encaixadas.
E é aí que começam a surgir os problemas.
As pessoas começam a esconder seu jogo, suas cartas, suas peças.
E o quebra-cabeça não consegue ser montado.
Eu, nesse mundo de jogos e falta de confiança e entrega, posso ser comparada àqueles quebra-cabeças de bebê. Sabem aqueles, de apenas 4 peças? Pois é.
Isso é ser uma mulher fácil? Então tá. Sou fácil sim. Não sei ser de outra forma.
Talvez por isso eu viva perdendo nesse jogo de cumplicidade, amor e entrega.
Desculpem-me pelo desabafo bobo no meio da noite e se, com isso, invadi suas privacidades.
Foi mal.

Paz no Inferno




Paz no Inferno
Silvia Britto

Meu coração finalmente encontrou a paz.
Não a paz dos contos de fadas que essa, além de não existir, é muito chata e monótona.
Quem quer saber de príncipes encantados engomadinhos, cavalos brancos, castelos encantados, que devem dar um trabalho enorme para limpar, e felicidade para sempre?
Felicidade demais cansa! De nada valeria se não fosse entremeada de tristezas e decepções para que pudéssemos valorizá-la.
Falo da paz do mundo real. Dos que ousam sonhar acordados.
Aquela paz que perturba, nos deixa inseguros, faz nosso coração bater desacelerado e nos faz tanto bem.
Não há nada que me traga mais paz do que acordar e ficar ansiosa, pensando se estarei sendo correspondida nas minhas loucuras.
Nada mais tranquilo do que os momentos que se seguem após o amor selvagem e sôfrego.
A paz do mundo real nos tira da acomodação e da mesmice.
Descobrimos que aquele papo de "não sou ciumento", "quero ser independente", "não gosto de andar na chuva", é tudo balela.
Papo de raposa sem acesso às uvas.
Bom mesmo é morrer de ciúmes. Ser posse e proteção.
Acabar-se de rir e chorar, tal qual sol e chuva.
E foi isso que eu encontrei. 
Graças à meninice da minha alma curiosa e ousada, e à cretinice dos amores bandidos.
Finalmente estou em paz no inferno da vida.
Amo você, meu contrabandista de gozos, cafetão da minha alma, boêmio da vida!
Obrigada por trazer paz e dasassossego à minha estrada, que agora é sua também.
Dê-me sua mão. 
Vamos caminhar.

Maracabosta


Maracabosta
Silvia Britto

Esse Novo Maracanã, padrão FIFA, é uma bosta!
Palhaçada o ingresso mais barato custar 100 reais!
Estão fazendo com o nosso Futebol, a mesma coisa que fizeram com o nosso Carnaval!
Onde já se viu pagar aquele absurdo para ver a Mangueira entrar?
A Mangueira sempre entrou de graça!
Assepsia não combina com futebol!
Politicamente correto, menos ainda!
O Seeddorf não é um afrodescendente! É um negão muito do lindo!
Não me surpreenderei se daqui a pouco as traves das chuteiras forem de ouro e os jogadores obrigados a fazerem Botox e plásticas para exibirem um padrão Beckham nos gramados!
Coitados dos Ronaldinhos Gaúchos e dos perna-torta como nosso inesquecível Garrincha!
Só não correrei o risco de ser presa por continuar a mandar o juiz tomar naquele lugar, porque sou uma brasileira "normal" e não tenho 100 reais para perder em um espetáculo sem alma e sem bandeira!
AFFF!
Querem saber, dona FIFA e gerentes dessa nova bosta? Vão à merda, antes que eu me esqueça!!!
Isso, porque sou uma dama e não vou falar aonde vocês realmente devam ir!


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Vida “coisada”




Vida “coisada”
Silvia Britto

Sei lá... Acho que a minha vida está, tipo assim, “coisada”, sabem como?
Sabem quando a gente não consegue juntar coisa com coisa?
É uma coisa esquisita, mais parece coisa do capiroto.
Coisas esquecidas, coisas cobradas, coisas a mim atribuídas que não são coisas minhas.
É cada coisa! Como coisa que eu merecesse isso!
Sempre deixei minhas coisas de lado para ajudar nas coisas dos outros.
Qualquer coisa, era só me chamar!
Mas estrou aprendendo que as coisas não podem ser bem assim...
Coisar a vida dos outros, faz com que esqueçamos de coisar a nossa!
Daqui pra frente será assim! Cada coisa no seu lugar.
Sei lá, tipo assim, sabem como?
Sacaram???

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Um passeio de trem




Um passeio de trem
Silvia Britto

Dormi na casa da minha irmã, no Engenho de Dentro, e resolvi voltar para casa, na Urca, de trem e ônibus. Julgando-me muito esperta, esperei até as 10 horas da manhã, para fugir da hora do rush nos trens. Certamente, às 10 horas, todos já estariam trabalhando.
O primeiro susto se deu quando cheguei à estação e a encontrei lotada. Perguntadeira como sou, logo inteirei-me da situação: os trens estavam com atrasos de 40 minutos hoje. A razão: só Deus sabe.
Por sorte, o trem vinha chegando e pensei, metida, que havia dado sorte. Sorte? Eu disse sorte? Bem, julguem vocês. O trem abriu as portas e eu duvidei da lei da Física de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Mas como meus companheiros de estação apressassem-se a entrar no vagão, eu é que não iria ficar para trás!
Como num passe de mágica, encontrei-me no centro do vagão. Lógico que não havia lugar para me segurar. Mas, ei! E daí? A vida é feita de emoções! À minha frente, havia uma mocinha, que ainda conseguia ser mais baixa do que eu, na ponta dos pés, tentando segurar na alça de metal que pendia do teto. Atrás, um negão afrodescendentão, à Seedorf, fazia a segurança do meu bumbum, que quase não ocupa lugar no espaço, pousando a mão delicadamente no meu também delicado derrière. Eu nem tinha como reclamar ante tamanha solicitude.
E seguimos viagem no trem “direto” para a Central, com paradas em São Francisco Xavier e Silva Freire. O maquinista, talvez supondo a imensa onda de calor humano que eclodia nos vagões, não se apressou e fez em 40 minutos um percurso que dura geralmente um pouco mais de 10 minutos. Na parada de Silva Freire, me dei por feliz de conseguir continuar no vagão rumo a Central. Quase fui levada pela horda pacífica de trabalhadores atrasados.
Agora eu tinha um pouco mais de espaço. Minha colega de meio metro partiu e me cedeu seu lugar na alça do teto. Já nem precisava mais da proteção do afrodescendentão. Mas ele não arredou pé, solícito em sua proteção à minha lombar. Quando eu achava que nada poderia ser pior, um dos passageiros resolveu soltar um pum! E foi daqueles estilo “fffffffffffffffff”! E cheguei à conclusão de que, realmente, nada é tão ruim que não possa piorar.
Chegando ao destino, resolvi refrescar-me e tomar um refresco de maracujá, para tentar acalmar os ânimos. Bebi o líquido amarelo, torcendo para que a minha flora intestinal não estranhasse muito as suas amiguinhas, que vinham naquela água de origem duvidosa. Enquanto eu bebia, olhava os rostos daquelas pessoas e pensava naqueles que ainda tiveram coragem de criticar o movimento pela redução do preço das passagens, que assolou nosso país nos últimos dias. Como assim, só por causa de 20 centavos? Antes de criticarem, tenho uma sugestão a fazer-lhes. Que tal pegarem vossas famílias e irem dar um passeio de trem pelos subúrbios do Rio de Janeiro numa manhã de segunda-feira? A emoção é garantida. Só não garanto que essa seja uma das melhores. Bon voyage!

domingo, 7 de julho de 2013

A madrugada me possuiu


A madrugada me possuiu
Silvia Britto

A madrugada chegou de mansinho e entrou embaixo de minhas cobertas, qual amante inquieta, sem conseguir esperar até o amanhecer.
Mordiscou-me o lóbulo da orelha, fazendo com que meu corpo adormecido despertasse num frenesi de desejo morno.
Foi descendo devagar e, com sua língua impetuosa, endureceu-me os seios, que quase não cabiam mais dentro do peito ofegante.
Eu, ainda tímida por aquela invasão, fingia-me adormecida, tentando respirar o menos possível, para não perturbar aquele momento mágico.
E ela ousou. Despiu-me de vergonhas e pudores.
Foi descendo pelo meu corpo, envolvendo-me com sua língua quente, cheia de promessas e elogios, tendo a escuridão da noite como cúmplice.
Eu, maravilhada por aquela sensação inebriante, fui me entregando, indefesa, àquela impetuosa visita.
Já não mais aceitava passiva.
Facilitei-lhe o caminho.
Entreguei-lhe a boca.
Provoquei-lhe com meu corpo quente.
Perdi a vergonha e lhe ofereci meu sexo inundado de volúpia e pressa.
E foi aí que ela me possuiu.
Invadiu meu corpo e fez-se dona de meus desejos.
Arrancou-me gemidos. Arranhou-me as coxas. Penetrou-me a alma.
Amou-me com a força e a calma que só os amantes mais experientes possuem.
Levou-me-me ao êxtase e inundou-me de poesia e plenitude, que agora transbordo nestas palavras tortas.
Perdoem-me pela ousadia de dividi-las com vocês.
Mas minha alma é prostituta e exibicionista.
Não coube em si e veio exibir seu cheiro profanado pela noite e fecundado pela madrugada.
A lua foi nossa testemunha.
Pronto.
Gozei.



calmaqu

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O tudo do nada





O TUDO do NADA
Silvia Britto

Certa ocasião, em um "monólogo" (sim, porque alguns homens fazem questão de não dialogar!)  com um ex-namorado, ouvi a seguinte exclamação indignada:

- Mas eu não fiz absolutamente nada!

Pois é, caros. Fazer nada, muitas vezes, é o TUDO de que precisamos para perdermos o encanto.
Nada de convites para o cinema.
Nada de surpresas.
Nada de presentes.
Nada de demonstrações de carinho e proteção.
Nada de promessas cumpridas.
Nada de pedidos atendidos.
E o NADA vira TUDO.
E o TUDO se torna um imenso VAZIO.
Portanto, meninos, não se iludam.
E façam! Demonstrem! Preocupem-se!
Mostrem que se importam! Surpreendam!
Fica a dica.