sábado, 20 de dezembro de 2014

Amar demais


Amar demais
Silvia Britto

Já fui acusada, algumas vezes, de ser uma mulher que ama demais. Acusada, pois o amor, neste caso, é considerado uma doença. Sinto desapontar mas discordo veementemente. Amor nunca foi e nunca será doença. Não deve ser confundido com obsessão, essa sim, destruidora vil e egoísta dos sonhos de outrem.
Todos já tivemos, em algum grau, nosso coração machucado, dilacerado. Desse mal, ninguém escapa. Mas isso deve tornar-se um ensinamento, para que possamos entender que o erro não está em doar-se e sim na atitude do outro em não saber, ou não querer, receber amor.
Fico pensando o que passa pela cabeça de algumas pessoas que têm medo de amar. Temos um só mundo pela frente e olhem para ele! Lindo! Ensolarado! Cheio de música, sol e mar! Não há tempo para se deixar de amar! O mundo é lindo mas o tempo é curto e a vida não para! A vida lá fora nos chama e convida a brincar.
Um coração que ama de verdade é igual a um guerreiro sem escudo: sabe que irá machucar-se mas não desiste de lutar. Amar não é para os fracos. Torna-nos seres vulneráveis pois abre nosso peito e deixa que cheguem, lá dentro, pessoas que podem fazer uma imensa bagunça na nossa vida e nos nossos sentimentos. Amar nos deixa exaustos, pois draga todas as nossas energias e causa dor real, física, em nosso coração. Mas quando a dor passa e nos descobrimos amados de volta, a recompensa é a luz de todas as luzes, é o que vai encher nosso corpo de energia para seguirmos felizes o resto da nossa estrada.
Também sou muito acusada de ser chorona. Pois eu digo que há algo de sagrado nas lágrimas. Descobri, há pouco, por exemplo, que um dos orixás mais lindos da Umbanda, Mamãe Oxum, chega sempre chorando, com a emoção à flor da pele. Não concordo que lágrimas são um sinal de fraqueza. São um sinal de poder, de força. Falam muito mais do que mil palavras. São mensagens do que as palavras não podem dizer, tanto para a felicidade quanto para a tristeza.
Também nunca vou tentar esquecer meu grande amor. Seria como tentar lembrar de alguém que eu nunca conheci: impossível! Não quero esquecer o meu anjo de prata.
Amar demais, repito, não é doença, é um dom. Infelizmente, traz consigo reações adversas que traduzem-se em solidão e tristeza por percebermos que muito poucos sabem amar de verdade. E acabamos por ter nossas energias sugadas, somos mal interpretados, manipulados e descartados quando as pessoas percebem que amar não é um jogo e sim um estilo de vida que requer cumplicidade, coragem e verdade. Pé que dá fruta é o que mais leva pedrada, e eu estou muito machucada pelas pedradas que andei levando. Mas meu tronco não vai apodrecer.
Concluindo, digo aos que me acusam que é verdade, amo demais! Ainda bem que tenho esse dom e essa capacidade de deixar pequenas coisas fazerem-me feliz. Que faço do beijo um ato de amor. Que faço do cheiro do meu amor o oxigênio que me faz sonhar. Que faço do gosto da minha paixão um instrumento que me faz  gozar. Sei que meu futuro, provavelmente, é acabar só, mas, felizmente, é assim que eu sei viver.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Da Urca ao Engenho de Dentro (com escala em Deodoro)


Da Urca ao Engenho de Dentro
         (com escala em Deodoro)
Silvia Britto

(Aconteceu há 2 anos)

Tudo começou com um pedido que parecia a coisa mais simples de ser atendido.

Minha mãe ligou me pedindo que fosse com ela ao Norte Shopping e que a ajudasse a comprar um vestido para usar no Natal. Vá lá que fazer compras no shopping na época do Natal não é exatamente o que eu chamo de simples diversão. Mas, prática como sou e imbuída do famoso espírito natalino encontrei logo uma solução. Estava certo. Iríamos às dez horas da manhã, assim que o shopping abrisse. Encontraríamos as lojas vazias.

No dia combinado, saí da minha casa na Urca e em poucos minutos, lá estava eu, britanicamente pontual, na Central do Brasil para pegar o direto para Japeri, coisa que já fiz centenas de vezes. É muito simples. Apenas uma estação da Central até o Engenho de Dentro. Porém, ouvi um aviso vindo de uma dessas vozes indecifráveis de além dos autos-falantes e achei ter entendido que esse trem pegaria uma via paralela e só pararia em Deodoro. Na dúvida, melhor perguntar a algum funcionário. Localizei um, devidamente uniformizado, que deveria saber do que falava. Ele fez umas perguntas, com cara de autoridade, através do seu radinho falante e disse-me, com toda segurança, que não havia problema algum. O trem seguiria seu trajeto normal. Infelizmente, descobri em questão de poucos minutos que informar não é o forte dos funcionários da SuperVia.

O trem seguiu, lotado como sempre, por um trilho cruzado em direção à Deodoro. Parou algumas vezes no meio do caminho à estação por motivos técnicos. Havia uma "composição avariada" à nossa frente e pediam-nos que, por favor, cooperássemos e esperássemos a liberação da via. Onde mais eles achavam que iríamos se resolvêssemos não obedecer? E ali ficamos por longos minutos.

Eu pingava de suor. Havia escolhido o traje errado para aquela empreitada. Normalmente, quando vou pegar o trem para algum lugar, deixo o modelito Garota-Dourada-Zona-Sul em casa e visto o Musa-Comportada-da-Lage. Que fique claríssimo aqui! Não vai aí nenhum preconceito ao subúrbio. Tenho lembranças maravilhosas de churrascos inesquecíveis nos quintais de Nova Iguaçu e Xerém. Sempre regados ao som de Alcione e de rodas de samba improvisadas para lá de profissionais. Esgoelava-me cantando Noel e Cartola com a rapaziada local. Quero apenas ressaltar que, como toda mulher que se preza, tenho um modelito  adequado para cada tipo de acontecimento.

Finalmente chegamos a Deodoro. A estação estava um buxixo só. Era como se alguém houvesse retirado a tampa de um recipiente que continha um bolo infestado de formigas. As formigas foram pegas no flagra enquanto levavam suas vidinhas normais de comedoras de açúcar. E instalou-se a confusão. Era gente indo, vindo, subindo, descendo. Parecíamos um monte de piões desnorteados girando com caras de interrogação. Dali não se vinha nem se ia a lugar algum. Pelo menos, não de trem! Interdição Geral! E num desses rodopios, fui lançada para fora da estação. O cenário não era mais tranquilizador. Tinha que achar meu caminho de volta a algum lugar.

Minha vontade era de rir daquele caos humano do qual eu fazia parte. Mais uma dessas coisas que só acontecem conosco. As setas nas placas apontavam  para direções opostas umas às outras. Ao mesmo tempo, apontavam para lugar nenhum. Pelo menos nenhum que fizesse algum sentido. Comecei a lê-las e tive a sensação de estar num concurso de Garota da Laje 2012. Eu, que só estava acostumada ao circuito Tim Maia "Do Leme ao Pontal", de repente vi desfilando na minha frente faixas de Madureira, Vicente de Carvalho, Pavuna, Marechal Hermes, Bangu, Campo Grande, Realengo, Vila Valqueire, Nilópolis, Anchieta... 

Oops!! Anchieta! Há pouquíssimo tempo descobri ter sido o bairro onde uma pessoa muito querida havia passado sua infância. Imediatamente liguei para ele. Mais para dividir o momento do que para pedir ajuda. Eu já não conseguia parar de rir com aquela situação inusitada. Ele nem deve ter estranhado o meu riso descabido. Já sabe que sou assim mesmo, sem noção. Deparei-me com uma placa onde se lia: Batalhão Logístico. Quá quá quá quá!! Logística?! Onde?? Ô vida irônica... Mas meu interlocutor, prontamente identificou: "Você está na Vila Militar!" Fato! Êba! Não estava mais perdida. Mas e agora? Como sair dali? Logo identifiquei um rapaz com roupa de exército. Ao lado dele, uma placa onde estava escrito: "Exército Brasileiro. Braço forte. Mão amiga". Era ali mesmo que eu iria pedir uma orientação. Antes de desligar o telefone fui ainda sabiamente aconselhada a não rir demais quando falasse com o rapaz. Verdade! Tinha que me controlar. Até mesmo para que não parecesse desacato à autoridade. Vai quê! Compenetrei-me ao máximo para fazer cara de perdida e caminhei ao encontro do rapaz que já prestava atenção em mim há algum tempo e deve ter pensado: "Putz! A louca risonha vem em minha direção!". Consegui fazer com que ele confiasse em mim e me orientasse. O número mágico do ônibus era 689. Agradeci e fui para o ponto.

O ponto estava lotado. Os ônibus não queriam parar, pois já não havia mais como acomodar passageiros. E como o Diabinho dos Contratempos sempre anda de mãos dadas com sua inseparável companheira, a Maré de Azar, começou a me dar uma vontade enorme de fazer xixi. Eu já tentara ignorá-la ainda no trem. Mas ela resolveu não se deixar subjugar. Pronto! Não podia mais rir. Era só o que faltava! E quanto mais eu me contraía, mais eu tinha vontade de rir da comicidade da situação. 

Comecei a recorrer a artifícios psicológicos com a intenção de distrair minha mente. Decidi brincar de ler o destino dos ônibus que passavam. Eis que passa um que ia para Pau da Fome. Onde? Quá quá qu... Segura, segura! Seria perto da Boca do Mato? Quá quá qu... Concentra, concentra! Lembrei-me de uma cantiga de rodas. Subúrbio sempre me inspira a brincar de roda. Havia uma cantiguinha que eu amava de paixão, Teresinha de Jesus. No final, um versinho dizia: "da laranja quero um gomo, do limão quero um pedaço, da morena mais bonita, quero um beijo e um abraço". Então! Eu não era uma morena bonita? Era só pegar a laranja e o limão da cantiga e fazer um suco.
Laranja e limão.Pura vitamina C. "C" de Carioca de Coração. E assim entrei no ônibus. Uma maranhense com alma de carioca seguindo a trilha da carioquice do subúrbio.

Passava pelos templos e dizia amém. 
Madureira: Portela! Amém! 
Padre Miguel: Mocidade Independente! Amém. 
Quintino: Zico! Amém.

E assim segui, respirando e me nutrindo daquela cultura da simplicidade que tanto me encanta. Ela é parte de mim. Infelizmente não tenho mais como frequentar essas bandas. Não tenho passaporte. Não tenho mais quem me convide para ir ao infinito e além de Xerém. Meu limite é o Engenho de Dentro.

De repente, numa curva em que o motorista do ônibus quase me perdeu pela janela aberta, vi aparecer majestoso o templo atual das tardes cariocas de domingo. O Engenhão! Não desmerecendo a Catedral, que é o Maraca, o Engenhão é realmente um espetáculo. Chegara. Estava em casa. Na casa do Fogão, meu time do coração. Desci do ônibus cantando internamente: "Foooogoooo! Foooogoooo! Foooogoooo!" Segui a pé, na verdade quase correndo, o resto do caminho que me levaria à casa da minha mãe sentindo-me a própria garota-carioca-sangue-bom, Imperatriz do Subúrbio! E tentando prender o riso. Falta pouco! Respira!


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Um nasce pra sofrer enquanto o outro ri

Um nasce pra sofrer enquanto o outro ri
Silvia Britto

Um nasce pra sofrer enquanto o outro ri...
É a pura verdade. Isso não quer dizer que sejamos sempre os que sofrem ou os que riem. Na verdade, todos nascemos para sofrer e para rir. Fazemos um pouco de tudo. Infelizmente, é do ser humano entender-se feliz baseado na infelicidade do outro. Mas, se fôssemos todos felizes, a arte não existiria, lindas canções não seriam criadas, lindas palavras não seriam ditas.
Não há como impedir o sofrimento de pessoas que, muitas vezes, dependem dele para crescer. Amar é ter coragem de ser feliz. É fazer da nossa petulância, o exemplo. Que vivamos sem pena dos que precisam enfrentar suas perdas para evoluir em sua estrada. Que não caiamos em armadilhas de competição e acomodação. Pena é um sentimento mesquinho e pobre, que não faz nada pela autoestima de quem se respeita e se gosta.
Que atire a primeira pedra quem nunca fez um filho, um amigo, um amor chorar. São pancadas que damos involuntariamente, quase num instinto de ajudar a crescer. Pancadas que libertam, pois fazem com que as pessoas aproximem-se mais do que realmente as faz felizes e deixem de ser pequenos seres parasitas da nossa felicidade e da nossa energia vital. Matam-nos quando nos têm como certos, objetos quaisquer em um canto de suas vidas. Sentem falta do que lhes convêm, não do que lhes completa. E isso é pura maldade. Eles não fazem por mal, mas por acomodação. E os culpados por isso somos nós, que nos deixamos usar e manipular, que alimentamos essa doença dependente da alma.
Ninguém é responsável pela felicidade de ninguém! Felicidade só tem valor se conquistada de dentro para fora. Magicamente, a partir do momento que nos libertamos para seguir nosso desejo, contagiamos os que nos cercam e lhes transmitimos um misto de coragem, admiração e agradecimento pela nossa verdade. Libertemo-nos para libertar, com coragem, sem mentiras e com muita vontade de colher os frutos bons que plantamos pelo nosso caminho. Eu mereço, você merece, todos merecemos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Compromisso com a felicidade


Compromisso com a felicidade

Silvia Britto


Felicidade é um sentimento muito particular a cada um de nós. O que me faz feliz pode não fazer o mesmo pelo meu vizinho. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é e, por isso, o caminho que trilhamos para atingir essa "tal felicidade" é muito pessoal.
A verdade é que há muito já percebi que esse sentimento é uma miragem, um momento fugaz, que serve apenas para contrastar com a tristeza e obrigar-nos  a ter força para seguir pela estrada que a nós foi destinada. Portanto, torna-se infinitamente mais importante o caminho que pode levar-nos à "tal".
Todos acumulamos problemas, diariamente, com os quais devemos lidar, para tornar a nossa existência viável. Sejam questões financeiras, familiares, amorosas, de saúde, de amor próprio, sempre haverá algo a ser resolvido e a dança das cadeiras das prioridades é incessante. Claro que, por vezes, ficamos cansados disso tudo e pensamos que não teremos cacife para continuar no jogo.
Eu, mantendo a essência de mulher intensa e transbordante, não poderia ser diferente. Lido com muitas questões, diariamente, que tentam levar-me a extremos de prazer e dor, num jogo de interesses em que tudo que se quer é encontrar maneiras de passar despercebido pelas armadilhas da vida. Impossível. Tenho muito pelo que chorar e sofrer, mas tenho mais ainda pelo que sorrir. Muitas vezes, choro e rio com o mesmo fato, dependendo do foco que se faça necessário para o momento. Às vezes, as duas pontas do meu viver embaralham-se e fico, qual louca, sorrindo um riso de lágrimas. Bipolar mais do que assumida, mas não saberia agir de forma distinta.
O problema é que, ao usar as poderosas ferramentas do riso e do choro para a mesma situação, acabo estagnando-me numa camisa de forças invisível e não chego a lugar algum. E é nessa hora que o monstro da depressão espreita-me ao longe, esperando uma brecha para cravar suas garras em minha alegria.
Sempre julguei-me inteligente e corajosa nas minhas escolhas. Algumas dessas escolhas têm a mesma proporção da minha coragem, o que não me deixa lastro para o conforto. Viver, mas viver de verdade mesmo, é exatamente sair dessa zona de conforto, coisa que, modéstia à parte, sei fazer com maestria. A acomodação é pior do que a morte prematura. É morte em vida, é vida desprezada, é pecado mortal da alma. Desta vida, só levamos a alma, o que torna imperioso que dela cuidemos com carinho. Nascemos para cuidar da nossa raiz, para cair na estrada, para ficar por um triz. Ousar é preciso para que consigamos da vida o que ela tem de melhor: a liberdade de sermos quem somos e a alegria de viver sem culpas e sem vergonhas.
Se Deus realmente existir, Ele não há de nos querer tristes, cabisbaixos, ignorando o grande presente que nos deu, a VIDA. Não há de ficar feliz de ver-nos desperdiçando nosso tempo com passados que não mais nos pertencem e que apenas serviram para nos mostrar que escolhas fazer em nome da felicidade e do amor. Quererá ver a desenvoltura com que construímos nossos caminhos. Amará nossos sorrisos, ainda mais, se formos autênticos e se tivermos força de enfrentar nossos medos e nossas opções  de cabeça erguida, sem o grande fardo de ser responsável pela felicidade ou tristeza de outrem! Ninguém é responsável pela felicidade de ninguém! Essa é uma melodia que se dança solo, sempre na pista, a espera de alguém que se encaixe ao nosso passo. Fazer o nosso caminho com honra, alegria e sinceridade, é o que Ele espera de nós.
Resta-me apenas a opção de como enfrentar os dragões de duas cabeças que encontro pelo meu caminho. Opto pelo caminho da leveza, do amor, da verdade e da entrega. Meu compromisso é com a felicidade e não com a estagnação. Tento, incansavelmente ficar de frente com minhas dores, não as desprezo. É necessário que as enfrente para que eu possa valorizar a ausência delas. Não ligo se pareço incoerente. Que atire a primeira pedra quem não o é. 
Tenho sim, mil razões para chorar, mas faço uma força danada para não deixar que esses sejam os momentos que regerão a minha vida. Quero poder ninar a minha filha quando estou com ela; brindar com os amigos à sua saúde; agradecer aos irmãos de alma pela sua força. Acima de tudo, quero entregar-me inteira ao meu amor, quero ser completa ao seu lado nos momentos que juntos passarmos. Não quero deixar que minhas inseguranças e incertezas estraguem os deliciosos beijos de amor e as carícias de suas mãos pelo meu corpo. Isso não é jogar os problemas para baixo do tapete, pois pretendo vivê-los um por um e resolvê-los da melhor forma possível, cada um a seu tempo. Enquanto misturo tudo, imaturamente, deixo de viver,  e o que pensei estar resolvendo, na verdade foi apenas uma grande perda de tempo. 
Há momentos em que certos problemas só podem ser resolvidos de forma solitária. E é isso que tento fazer. 
Não vou deixar que nada macule minha alegria de viver e minha positividade. Vou dar a Cesar o que é de Cesar, lutando muito para não misturar as estações. Por isso, digo, já disse e repito, meu único compromisso é com a felicidade. Por ela rio, por ela choro, por ela faço o que for necessário. Fora correntes que nos prendam a passados que não nos cabem mais! Fora incertezas que destroem nosso tesão! Fora manipulações de pessoas que não sabem o que é amar! Que se soltem as amarras do crescimento, tanto nosso como de nossos filhos! Que sejamos amados pelo que somos e não pelo que omitimos ou fingimos viver! A vida é curta, o tempo urge e os beijos não podem parar!

À felicidade!

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Sedução e paixão


Sedução e paixão
Silvia Britto

Sedução...
Sem querer, peguei-me pensando no significado dessa palavra. É a capacidade de encantar ao outro. É o momento em que esforços não são medidos para chegar ao objeto de nosso desejo.
No amor, é um dos mais encantadores momentos, em que doces “nadas” são sussurrados aos nossos ouvidos, fazendo a pele arrepiar. É o momento em que deixamos nossa criança interior vir à tona e reinar quase que absolutamente, solta e feliz. Não há nada mais sedutor do que o carisma de uma criança.
E assim seguimos, felizes, despreocupados, dançando pelas ruas, cantando felizes, descobrindo o prazer que cada pedacinho do corpo do outro nos proporciona. Embriagando-nos de novos cheiros, novos sabores e novas emoções.
Não há como negar que é um momento mágico. Lágrimas brotam aos olhos de quem está seduzido tanto quanto de quem seduz. O mundo para de girar e tudo se concentra em apenas um nome, um rosto, uma boca. E os pés, como em um sonho do qual não se quer acordar, não andam, mas flutuam.

Paixão...
É a emoção quase patológica do amor. Sentimento doloroso, muitas vezes com perda de individualidade, mas que exerce um fascínio absurdo sobre quem por ela é atingido. Ultrapassa todas as barreiras possíveis e imagináveis.Quando completamente correspondida, causa grandiosa felicidade. Dizem que é um sentimento passageiro... Dizem que não há como durar uma eternidade. Como tudo na vida, há o momento de retorno à realidade, onde a paixão cede lugar ao amor e o mundo tende a recuperar seu passo. E tudo fica mais sereno, a calmaria se instala e o coração se aconchega na paz da certeza.

E é aí que começa o meu problema. Não chego a alcançar esse patamar de tranquilidade. Sou intensa. Vivo eternamente enamorada e encantada com a sensação maravilhosa que um “eu te amo” provoca nos meus sentidos. Busco abraços, contatos, cheiros, como se nunca saísse do estágio da paixão e da sedução.
Obviamente, sempre chega o momento em que uma certa paz e certeza instalam-se em algum lugar ao fundo, mas não é isso que me faz arder de vida. Ardo com o inesperado, ou esperado, toque no meu pescoço, que tem o dom de arrepiar cada célula do meu corpo.
Tenho crises de abstinência de beijos, abraços, cafunés, danças no meio da rua, declarações inesperada e deliciosamente fora de hora. Sinto ânsias de encontros! Sou uma eterna apaixonada e sei que tenho que tomar extremo cuidado com esse meu sentimento sob o risco de sentir-me rejeitada ou esquecida. Nem todos nasceram sem esse freio normal e, se seguirem o meu ritmo, acabarão atropelados pelo próprio desejo.
Estou em fase de tentar amadurecer. Fase de tentar entender que cada um tem seu ritmo, independentemente do amor que possa sentir. Tranquilidade não é sinal de desamor ou falta de interesse. O fim da sedução, não significa falta de paixão. Minha tendência é ser eternamente uma adolescente enamorada e, se não tomar muito cuidado com isso, acabo por me machucar ao esperar do outro, coisas que não me podem ser dadas. Há milhares de outros detalhes que impedem que essa paixão e o jogo de sedução estejam sempre no topo da lista das prioridades das pessoas em geral.
Entretanto, faço questão de marcar muito bem a minha posição inconsequente de eterna apaixonada. Luto para dar atenção também aos inevitáveis problemas do dia a dia, mas nunca deixarei que nada interfira no delicioso jogo de sedução, entrega e paixão, tão difíceis de ser alcançados, desacreditado por alguns e invejado por muitos.
Apenas tenho que aprender a me bastar e ficar feliz em sentir o que sinto, independentemente do que o outro possa estar sendo capaz de me dar. A felicidade e plenitude vêm de dentro e nunca devem ser cobradas de quem quer que seja. Cada um dá o que pode e quando pode. Fico muito feliz em apenas sentir o que o outro provoca em mim e tento desligar-me do que me pode ser dado. Dá quem pode e como pode. Cobra quem não sabe amar. E é isso que aprendo mais e mais a cada dia. Apesar da minha carência sem fundamento, não quero cobrar... Quero amar.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

No Maranhão, babaçu abunda


No Maranhão, babaçu abunda
Silvia Britto

Abunda.
Mas não é só o babaçu que abunda.
Abundam carinhos que transpiram família.
Abundam lembranças que choram saudades.
Nada como sentir, novamente, o carinho de pai e mãe através de seus irmãos, que carregam o mesmo sorriso, o mesmo calor, o mesmo tempero. Como o famoso vatapá da Lelete, com gosto de vó Dedé. Lelete, tia querida, que ouso dizer, herdou a missão de ser minha mãe do coração, coisa que ela faz de forma generosa e inteira, com carinho e cobranças nas horas certas, coisa que só as mães sabem fazer. Levanta-se cedo, vai ao mercado, cozinha os caranguejos ainda vivos, zelando por seu frescor. Abraça, com muito orgulho, seus netos e sempre sobra um pedaço desse carinho para quem tiver a honra de por ela ser encantado. E toma-lhe cerveja, que os Britto não podem parar!
Lembranças intensas brotam-me pelos olhos, ao deparar-me, mais uma vez, com a casa em que nasci, na querida São Pantaleão, defronte à casa da Dona Glória, com seus filhos amados, que dividiam comigo a deliciosa tarefa de brincar pelas calçadas da rua. Como num sonho, nossas vozes infantis me vêm ao coração e vejo-me gargalhando, pulando elástico com as meninas Lago, admirando a beleza idêntica das lindas gêmeas, Luísa e Heloísa, da casa vizinha, trocando beijos roubados com o Beto, soltando papagaio com Pedro, Paulo e Raimundinho pelos telhados das casas, enquanto vovó Laíde preparava o mais gostoso arroz de toucinho que já comi, empatado apenas com o do Tio Moza, que provou haver herdado seus dotes culinários.
A casa agora, abriga meu tio, Mestre Patinho, uma das figuras mais respeitadas em São Luís, pela sua arte de rua, na capoeira e também pelo seu jeito despojado de valores que nos são ditos como "normais". Patinho é xamã. Para quem não sabe, o xamanismo é uma das mais antigas práticas espirituais, médicas e filosóficas da humanidade. Essa honra lhe foi conferida durante sua convivência com índios no alto Xingu. Patinho não anda. Ele flutua pela vida com valores próprios e despojados de materialidade. É amado, respeitado e admirado por seus filhos e netos de uma forma que faz doer o coração. Agora, também admirado por mim, que consego enxergá-lo com os olhos de uma mulher aberta às incoerências e falta de nexo da vida.
E o passeio pelo tempo e pelas mãos que ajudaram a moldar a minha essência veio fortificar o meu sentimento de guerreira, de moleca, de lunática, eterna criança e nordestina filha da terra e do mar da minha querida Ilha do Amor. Que apelido sugestivo, não acham? Ilha do Amor! Voltei revigorada pela certeza de pertencer. Sou bandida, sou solta na vida, mas tenho ainda meu porto seguro, com suas lindas histórias e passagens de vida de um tempo que não volta mais, mas nunca  morrerá.
Peço a benção aos meus queridos Britto, Lelete, Kêta e Catiba, meu padrinho lindo. Benção aos Ramos. Sua benção Mestre Patinho. Bença Moza, meu eterno Gato Louro, gaiato como ele só e o maior contador de casos de todos os tempos!
Volto ao mundo presente com a certeza de que essa ideia de passado e futuro são apenas miragens que a mente cria para não viver em saudade pelo que passou e ansiedade pelo que ainda virá. Na verdade, o passado é tão presente quanto o futuro e é dele que ganhamos a força e a energia necessárias para continuar agregando pessoas queridas e seguir construindo nosso futuro que, um dia, também deixará lembranças.
Salve São Luis do Maranhão!

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Estranhas manias


Estranhas manias
Silvia Britto

Ao longo da vida tive a oportunidade de fazer grandes e inesquecíveis amizades.

Pessoas diferentes, de diversos meios e culturas, que tive a sorte e o prazer de encontrar pela estrada afora. Interessante perceber as peculiaridades e semelhanças de cada uma delas. Como bem diz o nosso compositor baiano, filho de D Canô, Caetano, "de perto ninguém é normal". É com imensa satisfação que compartilho dessa opinião. A vida é um mosaico colorido de loucos, tentando viver uma vida normal. Uma verdadeira panaceia!

Pensando sobre isso, os vários personagens que passaram e ainda passeiam pela minha vida, começaram a surgir na minha lembrança. Surgiram como pipocas de vários sabores. Doces, salgadas, apimentadas, molhadas, risonhas, barulhentas... Um verdadeiro espetáculo.

Lembro-me de uma amiga de prédio (é, na cidade grande tem dessas coisas: amigos de playground!) que adorava dar beijo na boca. Toda vez que ficava sem namorado, tinha a estranha mania de fechar os olhos e beijar seu antebraço. Isso parecia satisfazer-lhe em momentos de vacas magras de parceiros.

Outra, já um pouco mais velha, tinha mania de perseguição. Para me contar um segredo era um desespero! Primeiro tínhamos de nos certificar de que não havia mais ninguém em casa. Em seguida, íamos para o seu quarto onde nos trancávamos, não sem antes verificar se havia algum inimigo escondido nos armários. Por último, checava se o telefone estava bem colocado no gancho, evitando assim que o espião nos ouvisse do outro lado da linha. Que tortura, para alguém curioso como eu, ter que passar por toda essa revista antiterrorista antes de saber o famigerado segredo! E nem sempre valia a pena...

Tive um namorado que adorava sanduiche de pão com melancia! Também bebia suco de laranja com leite. E não é que era bem interessante? Algo tipo: leite de laranja!

Também havia outro muito doido que não conseguia esperar por elevadores. Se quando chegasse, o elevador estivesse em outro andar, pronto! Era o suficiente para que ganhasse as escadas. E lá ia eu atrás, fiel e solidária companheira, bufando, escada acima. Era a glória total quando havia um elevador nos esperando. Cheguei a tentar imaginar uma engenhoca que acionasse o elevador à distância, para poupar minhas pernas das eternas escaladas. Ainda bem que ele não via problemas em esperar os ônibus. Esperava calmamente pela condução. Até mais bem humorado do que eu.

Já na adolescência, conheci uma menina muito bacana que não conseguia sair de casa sem batom. Muitas vezes tivemos que retornar do meio do caminho  à sua casa para resgatar seu "brilho", esquecido em outra bolsa. No caminho de volta, ia esclarecendo-me as óbvias razões para tal maluquice: sentia-se nua sem seu batom. Mas o mais importante era: e se por acaso encontrasse seu príncipe encantado pela rua? Como beijá-lo com os lábios insossos e desbotados? Vai quê!!

Mais uma maluquete. Essa, todas as vezes que tropeçava por alguma razão, batia com o pé direito três vezes no chão enquanto repetia: "não dou, não dou, não dou; é meu, é meu, é meu!" Dizia que o tropeção era, obviamente, um sinal de que alguém estava tentando tirar-lhe o namorado. Mas que nem adiantava tentarem, pois ela não daria!

Recentemente, mais um maluco desses cruzou meu caminho. Esse tem na cabeça um plano de fazer um aparelho que eletrocute os garçons quando estes demorarem a dar-lhe atenção. Come empadas de "galo". Tem raiva de bifurcações. Esconde-se no Facebook! Não gosta de balanças. Equilíbrio lhe parece uma coisa totalmente sem graça e sem tempero. Faz pinta de antipático. Mas por dentro é um moleque brincalhão. Esquisiiiiito! Mas adorável.

E eu, abençoada pelo destino e camaleoa da vida, sigo carregando um pedacinho de cada um deles dentro de mim. Resultado: 

Já estou completamente apaixonada pelo meu antebraço de tanto que o beijo; 
Só conto segredos após verificar se o celular está desligado; 
Adoro suco de laranja com leite; 
O batom é a primeira coisa que checo antes de sair de casa; 
Sempre que tropeço, digo as palavrinhas mágicas com toda minha energia. Não vou entregar meu namorado assim, de bandeja... Mesmo que tal criatura não exista! Ele não existe, mas que fique bem claro que ele é MEU!
Não posso mais deparar-me com bifurcações sem cair na gargalhada.
Eletrocuto todos os garçons lerdos do planeta. E adoro empada de galo!
  
Quanto ao elevador... Ah! Esse não!!! Já paguei o meu preço no passado. 
Já subi muita escada por aí. Basta a lembrança daquele tempo bom em que parávamos entre os andares para tomar fôlego e para um beijo gostoso.
Chega... Minhas pernas agradecem a compreensão!

E que venham mais malucos adoráveis para povoar os meus dias.
Agradeço a todos eles por ajudarem a construir esta colcha de retalhos colorida e sem noção chamada eu.

O que escrevo pode não ter cabeça. Nem pé. Mas tem umbigo!

E para terminar, confesso uma das minhas próprias maluquices. Mas, sshhhhh! Não espalhem por aí! Sempre tive a estranha mania de achar que todos os autores que leio são meus amigos de verdade. É quase como se estivessem conversando comigo através de seus livros. Por isso, termino a minha “conversa” com vocês, pegando emprestado um pensamento de um grande amigo meu, o Millôr. Ele disse que não se importaria.

“A única diferença entre a loucura e a saúde mental é que a primeira é muito mais comum.”

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Dar uma chance ao homem


Dar uma chance ao homem
Silvia Britto

Há uma condição inerente ao fato de sermos humanos que talvez nos tenha trazido ao nosso atual estágio de evolução como supostos soberanos do planeta. Essa condição é a capacidade que temos de conviver em sociedade, criando leis e obedecendo a regras imprescindíveis para tal convivência. Soma-se a ela, a capacidade que possuímos de darmos uma chance à nossa própria espécie de evoluir construtivamente. 
O homem sempre contou com sua sabedoria e arte de elaborar ferramentas para sobrepor-se ao resto do mundo animal. Nossas leis e tradições nada mais são do que ferramentas de convívio social. Todavia, será que fazemos uso delas com a inteligência devida? 
Por mais que haja impulsos de nos auto- entitularmos como animais racionais, paira uma dúvida no ar. Onde está a racionalidade das guerras iniciadas e das chacinas cometidas em prol de uma sociedade sangrenta e autoritária? Desde quando destruição é sinônimo de crescimento? 
Dar uma chance ao ser humano vai além de respeitarmos nossos vizinhos e nossa família. É a capacidade de aceitar o homem e os animais como seres irmãos. Cuidar do planeta como se cuida da nossa casa. Essas são talvez umas das principais regras sociais de convivência. E, para essas, não há de haver exceções se nosso objetivo é dar uma chance a nós mesmos de vivermos em um mundo justo e igualitário.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O que há para hoje



O que há para hoje
Silvia Britto

Há muito que não escrevo e, por isso mesmo, sinto as emoções acumularem-se de forma preguiçosa e perigosa dentro da minha fiel e anárquica cabeça inquieta.
Tenho sido vítima de uma acomodação infértil e nada generosa na arte de doar-me. Tenho andado egoísta, e ensimesmada, voltada apenas para meus prazeres e dores de mulher atrevida, esquecendo-me de que estou longe de ser o centro do Universo.
Quantas vezes mais terei que deixar de apreciar um belo por de sol para descobrir que ele não mais repetir-se-á? Quantos luares terei ainda que desdenhar para descobrir o quão tola e pequena eu ando sendo?
É certo que ando pela vida aberta a tudo que me possa fazer sorrir ou chorar, mas ando esquecendo-me de que a vida também é repleta de situações que fogem ao meu controle.
Para que ter medo de momentos que podem não chegar? Ou, pelo outro lado da moeda, por que fazer planos de contos de fadas se as pontes podem partir-se antes de eu chegar aos castelos?
Da vida, quero apenas o presente. E é assim que tem que ser. Que o passado me encha de experiência e sabedoria para viver o hoje e pare de me atormentar com situações sobre as quais eu não tenho mais o poder de evitar.
Que eu seja suficientemente sábia para não transferir o passado ao futuro, que pode nem chegar para mim. Afinal, o futuro é apenas uma miragem e o passado uma lembrança, como se fossem sonhos indomáveis e inalcançáveis.
O que nos resta, de concreto, é apenas o presente. Por isso, que eu tenha a sabedoria dos alcoólatras anônimos de viver um dia de cada vez, da melhor forma que puder. Que meus sonhos sejam passíveis de concretizarem-se daqui a uma hora e não daqui a dois dias, fazendo com que minhas inseguranças e medos não encontrem eco em meu coração.
Quero muito conseguir concentrar-me apenas na felicidade de poder assistir ao por do sol tomando um café quentinho nas tardes de inverno. Sozinha ou acompanhada... Ou melhor, sempre acompanhada da pessoa a quem mais devo amar neste mundo: eu mesma!
Que o meu amor próprio e o orgulho de ser quem sou nunca me abandonem e que seja sempre esse amor que me guie ao encontro do que a vida tem em estoque para mim.
Se nessa vida cada um faz o que quer, cumpre e descumpre tratos de acordo com seus instintos e necessidades, por que não posso eu entender que é isso que nos torna humanos e ser também capaz de aceitar que a vida é um jogo de acertos e erros que não dependem apenas de nós para mudar o nosso prumo?
A vida é isso, um jogo de azar.Ganham aqueles que não se incomodam de perder, se é que dá para me entender. Perdedores, são aqueles que não aceitam ou não entendem que tudo pode apenas ser uma grande miragem. Como miragem, deve ser reservada ao aqui e ao agora. Deve ter apenas um soberano a resolver a hora de sonhar e acordar. Essa resolução deve caber apenas a nós mesmos. Sempre. Sem contar com o amor ou mudança de humor de outrem.
Ser feliz e amar a mim mesma acima de tudo. É o que há para hoje.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Rosh Hashaná - Feliz 5775!


Rosh Hashaná - Feliz 5775!
Silvia Britto

Hosh Hashaná é o Ano Novo judaico.
Dia em que todo o ciclo da vida é reiniciado com as colheitas nos campos. Relembra a criação do mundo e a sua tradução, do Hebraico, seria “cabeça do ano”. É um momento de introspecção, rezas e agradecimento. Momento de renovação de fé. É parte de um momento de crescimento espiritual e caridade.
À mesa, tem-se a challa redonda, o pão judaico, representando o círculo da vida. Maçãs são banhadas no mel, na esperança de que seja doce o ano que se inicia. Nas sinagogas escuta-se o toque da shofar, chifre de carneiro que, ao ser tocado, convoca à oração.
Tive o grande prazer de viver no seio de uma família judaica por 30 longos e lindos anos de minha vida. Hoje, não mais pertenço a esse seio acolhedor. Mas com 30 Hosh Hashanás no meu currículum, também aprendi a ser grata por tudo que a vida me deu e a ser receptiva a tudo que ela ainda tem a me oferecer. Um pedaço do meu coração ficou lá, com os Nadanovskys. Parte deles ainda carregarei comigo pelo resto da vida, nos olhos da minha linda filha, que não deixou a tradição morrer pelo fato de meu ventre não ser judaico.
Aprendi  com os Nadanovskys e  com esse lindo feriado judaico, a capacidade de tomar sempre decisões conscientes, de olhar para dentro de mim mesma, verdadeiramente, ver a minha própria vida e fazer as correções necessárias.
Hoje, meu pensamento e meu coração estarão lá, no seio dessa linda família, e a primeira lágrima do ano cairá. Não de tristeza, mas de renovação.
Shaná Tová a todos e que o toque do shofar ecoe em nossos corações durante todo o ano, lembrando-nos sempre de sermos o melhor que podemos ser.

Shalom.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Do Latim: dourada


Do Latim: dourada
Silvia Britto

Do Latim, dourada. No velho e bom Português, Flavia.
Há exatos 31 anos, eu via nascer uma menina. Menina dourada, de olhos verdes e aura brilhante.
Seu nome foi dado pelo vô e, imediatamente, aceito por todos. Talvez soubéssemos, instintivamente, que ali nascia uma guerreira de ouro, destemida e impetuosa, como são os dispostos a vencer na vida.
E a menina tornou-se um bebê engraçado, corajosa e maluquinha. Uma vez tomou um calmante, perdido pela avó, por achar que era apenas uma bolinha de comer. Não tinha vergonha do mundo e a todos conquistava com sua inteligente transparência. E me conquistou.
Muito mais do que sobrinha e "tia emprestada", éramos cúmplices de molecagens. Minha alma moleca sempre fez com que tivesse uma imensa empatia com crianças. Eu não cresci, e ela também não.
E o tempo passou, e passou, e passou. Fomos testemunhas de momentos muito importantes da vida uma da outra. E seguimos juntas, aprendendo com a vida, que o caminho dos que têm coragem não é nunca o mais fácil. Fomos, cada uma do seu jeito, ao fundo do poço. Caímos porque era preciso. Temos em comum, a intensidade. Mas o destino queria mais de nós.
A vida nos separou mas o coração nos uniu. Nossa ligação é de alma, dessas que não se perdem pelos desmandos da vida.
Hoje, ela aos 31 anos e eu aos 51 (sempre 20 a menos que eu! Damn it!), continuamos mais unidas do que nunca, pois conseguimos enxergar o quanto temos em comum. Coragem, simplicidade, pés no chão, determinação para buscar o que julgamos certo, senso de humor e muito, mas muito amor e cumplicidade uma pela outra.
Que seu caminho continue esse, de aprendizado e crescimento.  Que você nunca perca a alma moleca que lhe é peculiar. Que seja sempre capaz de rir de você mesma. Que realize todos os seus desejos e que tenha muita sabedoria ao escolhê-los. E que, com toda certeza, continuemos sempre a testemunhar as vitórias uma da outra. Não é fácil, mas nós não vamos desistir nunca, não é verdade?

Parabéns a você nesta data de Luz!
Muitas felicidades, muitos anos de Paz!

Te amo, minha menina dourada!

domingo, 31 de agosto de 2014

Aperto nos olhos


Aperto  nos olhos
Silvia Britto

Ah, esse aperto nos olhos que não me larga! Como sai água dessas duas bolas verdes!
Parece já pirraça da vida que adora me dar pequenas rasteiras e nunca me deixar em uma situação de paz e conforto por muito tempo. Mesmo com a vida fluindo, aparentemente tudo tomando seu rumo, fazendo novos amigos, estreitando os laços com os antigos, sorrindo, dançando, parece que sempre há um resto de conta a ser paga, que aparece de sei lá onde, sei lá porquê.
A vida é muito sacana comigo. Parece que adora me ver na corda bamba e sem sombrinha! É ainda muito tênue a linha que me separa do Céu e do Inferno. Sou, constantemente, posta à prova, testada, abusada nas minhas inseguranças, taxada de chata e de “qualquer”por buscar minhas verdades e por ir atrás do que preciso para ser feliz.
Não sei bem, mas imagino que, por ser uma pessoa extremamente generosa, não medir esforços em resolver pendências emocionais de todos que me cercam, acabo achando que todos são iguais a mim. E isso não é verdade. Muito poucas pessoas têm resistência de manter a mão firme para tirar alguém dos buracos que a vida nos apresenta. É preciso amar demais.
Estou com a alma muito sozinha e cansada. Com vergonha de expressar meus sentimentos para não ser taxada de “mulher como todas as outras”, como se isso fosse um grande defeito. Não sou, e nunca tentei ser, a Mulher Maravilha. Sou de carne e osso. Tenho minhas milhares de inseguranças e, talvez, por ser muito intensa, acabo recebendo a etiqueta de burra ou repetitiva. Mas é isso que nós todos somos quando sentimentos são envolvidos. Eu mesma, cansei de repetir, milhares de vezes, a mesma história, para tentar lançar um pouco de lucidez aos que dela necessitaram.
Mas quando chega a minha vez, a retribuição não vem. Ou vem com grosseria, intolerância. E isso cansa demais. Cansa ter que resolver sozinha as minhas pendências e ser a responsável exclusiva pelo meu bem-estar emocional. Draga-me as energias e sinto-me como um peso morto tentando brincar de viver. Difícil não deixar a cabeça desvairar por caminhos tortos e imaginários. Mas não me restam muitas opções. Parece que, da vida, ganhei essa tarefa, a de tentar ser auto-suficiente e autoexplicativa. Parece-me que irrito muito ao me mostrar vulnerável. Sensação triste e chata de ter que ser sempre a Super Mulher para ser amada e aceita.
Sou burra sim! E daí? Sou fraca, sinto ciúmes! Preciso de repetições para digerir determinadas situações que me parecem não ter pé nem cabeça! Certas situações, ainda mais as inacabadas, exigem muita atenção para não acabarem com os sonhos e a felicidade conquistada a muito choro e noites mal dormidas. Ora bolas! O que há de burro na repetição de certezas que acalmam o coração? Nunca me neguei a repeti-las! Por que não mereço igual tratamento?
E ainda sinto, vinda de alguém que deveria cuidar de mim com toda a ternura e carinho, uma pontada malévola de prazer em me deixar insegura e infeliz com as minhas dúvidas. Essa maldade inconsciente vem sob a forma de “brincadeira”. Mas brincadeira tem hora. Às vezes, acho que parece proposital, para me prender de uma forma infantil e, embora não propositalmente, cruel.
Mas vou, mais uma vez, reerguer-me. Não vou abrir mão do grande amor da minha vida. Se ele não for meu, é porque não era para ser. Se eu tenho certeza do que sinto, e quanto a isso não tenho dúvidas, isso deverá me bastar. Entregar-se a alguém, como eu me entrego, é uma das coisas mais lindas do mundo e, se eu não conseguir igual tratamento e entrega, certamente, quem estará perdendo não serei eu. Vou seguir com a minha vida, independente das evoluções que ocorrem paralelas a minha felicidade. Não adianta, e não funciona, depender da dedicação e entrega de outrem para sermos felizes. Cada um tem as suas próprias vontades, necessidades e vaidades com as quais se ocupar.
Quero seguir minha vida de forma verdadeira, positiva, alegre e confiante como sempre fiz. Vou vivendo e tentarei lidar com as perdas e decepções quando, e se, elas surgirem. Tenho muitos medos sim... Mas não posso deixar paralisar-me por eles.
Quero ter, de novo, a inocência das crianças, o corpo fechado para o mau-olhado e negatividade dos invejosos de plantão, dos que não sabem amar, dos que não entendem o que é cumplicidade e entrega total. Não vou permitir que essas energias mesquinhas invadam meus sonhos e os transformem em pesadelos. E, se isso acontecer, não vou ligar a mínima pela manhã, fazendo com que todo o desejo ruim e mau julgamento da minha pessoa, ache seu caminho de volta nos espelhos da vida.
Tenho todo o direito de sentir meus medos e inseguranças em paz. Aos que apenas desejam dividir comigo minhas alegrias e positividade, peço apenas que se afastem e deixem-me ser quem sou por inteiro. Aguardem! Melhores momentos virão. Na verdade, quase o tempo todo eu sou positiva e pra cima. Se não querem dividir meus medos e ajudar-me a sair deles, repito, afastem-se e apenas aguardem. A mulher otimista e positiva sempre retorna fortificada pela coragem de ser quem é. Mas não vou me privar de sentir o que sinto. Toda minha dor e ansiedade é legítima. Não sou uma mulher que inventa problemas para neles sucumbir.
Sou corajosa, sou verdadeira, sou bonita, sou inteligente, sou amiga, sou cativante, sei que acendo luzes por onde passo, sou consciente do meu appeal ao outro, em vários sentidos, mas nunca vou me valer dessas poderosas armas para ser feliz nem para subjugar quem comigo estiver. O segredo da felicidade é apenas um: simplicidade e paz no coração. E é essa paz que vou buscar mais uma vez, alone again, naturally. É de paz interior que preciso. Faço a minha parte e espero que a vida ache que mereço, como retorno, ser muito feliz nesse tempo útil de vida que ainda me resta. E que eu fique sempre com a certeza de que farei dos azedos e inevitáveis limões, maravilhosas caipirinhas.

À  vida!


A arte de amar

A arte de amar
Silvia Britto

Amar é uma arte.
Sendo arte, o amor requer constante dedicação e entrega dos seus protagonistas. Requer vontade de fazer dar certo e precisão na hora de tomar certas atitudes e resoluções.
É um constante malabarismo, como aquele em que se mantém os pratos girando em cima de varas finas, sem que nenhum perca seu prumo e sua velocidade gire dentro de um tempo preciso e complexo.
Os pratos que fazem um grande amor dar certo, na minha modesta opinião, são a paixão, o respeito, a admiração, a cumplicidade, o desejo, a confiança e o cuidado.
Paixão é algo que dispensa qualquer comentário que eu possa ter a respeito. Quase todos já tivemos grandes paixões na vida e sabemos tratar-se de um sentimento mágico e lindo, que nos cega e rapta para terras que não conseguiremos nunca descrever com palavras. Mas é traiçoeira, a paixão. Faz com que achemos que o mundo pode terminar na loucura de um beijo, mas nunca se sustenta sozinha. Está longe de ser o bastante para se viver um grande amor.
Daí vêm o respeito e a admiração. Um está fortemente ligado ao outro. Não é possível amar-se o que não se admira. A admiração faz nascer o respeito pelo outro e a aceitação de que cada um vive do modo que lhe é mais conveniente e, às vezes, da única forma que lhe foi possível para conseguir sobreviver. Se chegamos aonde chegamos, devemos fortemente às escolhas que fizemos ao longo da vida e essas têm que ser respeitadas e entendidas.
Cumplicidade. É o que nos faz confidentes um do outro. É trocar os mesmos prazeres. É entender do que o outro precisa para sentir-se pleno e seguro. É gostar das mesmas coisas, curtir os mesmos lugares, as mesmas músicas, as mesmas brincadeiras. É a parte em que o amor se confunde com a amizade, o sentimento mais nobre do mundo. Amizade transcende família. Amizade é quando escolhemos nossa família do coração. Amigos dizem o que têm que dizer, sempre nos deixando a certeza de que estão conosco para o que der e vier. É falar duras verdades e conseguir com isso vínculos profundos e necessários.
Confiança... Ai, ai... Eis uma das grandes vilãs para que o amor não se concretize. Intimamente ligada ao ciúme. É nessa hora que os mais afoitos e inexperientes deixam o prato quebrar. É quando surgem as cobranças, os ciúmes, as acusações doloridas e cruéis, as injustiças, o medo. O ciúme é um dos grandes temperos do amor, sem dúvida. Mas é o mais perigoso de fazer tudo se perder se errarmos a mão. Há ainda os que tentam usar o ciúme como uma arma, na vã tentativa de prender o outro aos seus pés. Provocam o ciúme do outro para sentir-se poderosos, dominantes, “introcáveis”. Ledo engano. Não se fortalece o amor diminuindo a confiança do outro. Não se fortifica uma cumplicidade deixando claro ao outro que se é desejável aos olhos do mundo, que se é livre para voar por onde bem entendermos e que somos os grandes fodões do pedaço, conquistando o que queremos com um simples estalar de dedos. Apenas cria-se uma grande insegurança que é capaz de afastar, para sempre, alguém que poderia ter sido nosso grande companheiro de vida e de prazer. Ninguém gosta de sentir-se vulnerável, carregar a sensação de poder ser facilmente trocado. Essa atitude infantil não passa de uma vaidade vazia, em que se dá mais valor ao suposto “sucesso” que fazemos aos olhos de quem não nos traz nada em troca, em detrimento daquele que nos entrega o coração. Provocar o ciúme do outro é maldade pura, é vaidade vazia, é, na verdade, dar mais importância a si mesmo do que ao ser amado.
Desejo, talvez, seja um dos pratos mais fáceis de manter no ar. Perde apenas para a rotina e para o descaso. Quando há a tal da química entre os corpos, todo toque é sempre recebido como se fosse a primeira vez. Todo beijo vai buscar lá no fundo o arrepio que leva ao gozo. E quanto mais tempo passa, se os outros pratos seguem em harmonia, mais o desejo se fortalece, por conhecermos os caminhos um do outro, por brincarmos de descobrir rotas alternativas que cheguem ao clímax de forma nova e inesperada. E não venham me dizer que o tempo acaba com isso! Não acaba! Química é química! Rola ou não rola! O que se confunde, fazendo com que quase sempre coloquemos a culpa na falta de desejo, é a falta de cumplicidade, é a hora em que nos permitimos sermos solitários a dois. Se você não mais vê o outro, como sentir desejo? Se o caminho bifurca-se e cada um segue por uma estrada, como haver a mágica do toque? O arrepio na nuca?
Confiar que tudo isso é possível, que o outro não nos quer diminuir para dominar nossa essência, ter a certeza de que não nos quer prender fazendo com que nosso coração aperte ao nos criar um medo de perdê-lo com facilidade é, sem dúvida o prato base nessa equação de entrega e prazer. Ninguém consegue caminhar feliz se achar que o chão lhe pode faltar à primeira curva do caminho. E é aí que se mede a intensidade do amor do outro. Aí que se vê o quanto ele foi capaz de doar-se ao ponto de nos deixarmos guiar por suas mãos de olhos fechados. Não consigo entregar-me completamente se não achar que posso ser guiada por caminhos que não me farão bater com a cara em árvores e enfiar o pé em buracos. Quero a certeza de que posso fechar os olhos e ser guiada, por braços firmes, num eterno balé aquático na piscina da vida. Quero a tranquilidade de poder dormir com a cabeça no peito de alguém e sabê-lo ali, pela manhã. Quero a serenidade de um sono tranquilo para poder me jogar na montanha-russa da vida, quando acordada. Quero a certeza de ter um refúgio para onde fugir quando a vida tentar me engolir. Quero a plenitude de um abraço.
E chegamos ao último prato, o cuidado mútuo. É cuidar para que esses pratos mantenham-se sempre em seu caótico equilíbrio. É ficar atento às necessidades do outro. É tentar preencher, da melhor maneira possível, as perdas inevitáveis da vida. É ter pelo outro uma grande ternura e carinho e fazer de tudo para que sua passagem por essa curta vida, seja repleta de momentos intensos, na certeza de que nunca mais estará sozinho.
Muitos podem estar agora me lendo e pensando, que mulher louca, fora da realidade, utópica, sem-noção. A esses, apenas respondo que nunca desistirei de conquistar esse amor em minha vida. Afinal, eu sei que sou capaz, encontrada a pessoa certa, de equilibrar todos esses pratos sem o menor esforço, como se fosse minha própria natureza e a razão de eu existir. E com muito prazer e alegria! Se eu sei que existo (será?) e que disso sou capaz, não é possível que Noé não tenha trazido alguém da minha espécie em sua arca. Se eu nunca conseguir ter cem por cento dessa certeza ao lado de alguém, pelo menos a vida já terá valido a pena, pela procura ou por, pelo menos, noventa por cento, se eu for merecedora. Afinal, dar cem por cento e receber noventa, é praticamente um empate técnico.

E vamos aos pratos... Eles não podem cair.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Felicidade e perfeição


Felicidade e perfeição
Silvia Britto

Não há jeito certo ou errado de ser feliz.
Nunca satisfaremos a todos com a nossa felicidade. Nem a nós mesmos!
O que é necessário é que tenhamos força suficiente para seguir em frente quando a vida nos tira o que parece nos ter sido predestinado e aceitemos a possibilidade de que algo melhor pode nos estar reservado, em algum tempo, em algum lugar, em alguma esquina da vida.
Cansei de buscar a felicidade. É hora de parar com lamentos do que não foi, e seguir em frente em busca do que ainda será. Enquanto isso, vamos flertando com o que é. Vamos seduzir a vida para que ela nos retribua a audácia.
Afinal, a ausência nada mais é do que o espaço necessário para o que de novo tiver que chegar. Enquanto estivermos plenos de situações que não nos fazem sorrir, não há espaço para as gargalhadas que fazem doer a barriga. Ah! E como amo rir até pedir arrego com dor na barriga!
Os caminhos que nos fazem chegar ao orgasmo, nem sempre, ou quase nunca, são perfeitos. São tortos, diferentes, por vezes sujos, lambidos, fedidos, suaves, arrepiantes. Isso tudo não combina com perfeição asséptica e horários militares. Felicidade é liberdade!
Que possamos ser capazes de fazer amor às três da tarde, com a mesma facilidade com que o fazemos à meia-noite, abrindo assim a diversidade de deliciosos e surpreendentes gozos que o Sol e a Lua nos têm a oferecer.
Bom mesmo é perder o chão, o olhar, o sono. É não achar o prumo e perder o rumo, descalça, na chuva e sem medo de pegar um resfriado. Ser perfeitamente imperfeita e contraditória. Mudar a história. Não assinar ponto mas escrever o conto. Não ligar pra dinheiro mas fazer questão do cheiro.
Perfeição, rima com razão, conformação, submissão. Já felicidade... Ah! Felicidade rima com alegria, entrega, coragem, certeza, molecagem, audácia... Como? Felicidade não rima com nada disso? E quem é que está procurando a rima perfeita?
E não é?

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Em defesa das migalhas


Em defesa das migalhas
Silvia Britto

Por ter sempre sido uma pessoa que não tinha outra maneira de sobreviver se não fosse contentando-me com migalhas, criei um carinho muito especial por elas e lanço-me aqui em sua defesa. É certo que tudo pelo que passamos contribui para nos fortalecer e definir nosso papel no mundo. E é aí que entram as migalhas. Parece que não, mas elas nos fortalecem.

Há sempre um tom pejorativo em volta do termo "migalhas".Todos possuem uma ideia muito negativa a respeito delas. Mas não é bem assim.

Devemos prestar mais atenção às nossas pequenas e insignificantes conquistas do dia a dia. Graças a elas conseguimos caminhar e chegar aonde estamos. Quando se é pequeno, literalmente falando, são as pequenices da vida que nos enchem o coração de alegria. Quer coisa mais sublime do que ouvir uma história bem contada? Rir de uma piada boba? Do que dar vida a uma página em branco com uma caixa de lápis de cor? Do que ter a profissão dos seus sonhos concretizada em uma tarde, enquanto se dá aula de Português para bonecas ou se brinca de Miss Brasil?

Mas não falo apenas de coisas concretas. Quero defender também as migalhas emocionais. O pouquinho de amor e atenção que nos deixam felizes no cotidiano e que costumamos relegar ao segundo plano. O abraço do amigo. O "muito bem" do professor. O sorriso rápido do pseudo-paquera. O cheirinho de roupa limpa.

Fui uma criança que sobreviveu de migalhas.Emocionais e materiais. A princípio parece uma coisa triste. E é. Recolhia cacos. Passei muitos momentos de privação. Sentia-me triste e solitária. Mas é inerente ao ser humano a necessidade de sobreviver. E fomos dotados de pensamentos e emoções que nos ajudam nessa tarefa diária. Muitas vezes, isso sucumbe à realidade de tocar a vida em frente. 

Mas por que falo disso? Ah, sim, por causa das migalhas. Não nos damos conta num primeiro momento de como migalhas são importantes. Apesar de com certeza já termos ouvido ou pensado o contrário. Quem nunca ouviu o ditado: "de grão em grão a galinha enche o papo"? E é assim mesmo. É um pouco aqui e um pouco ali. 
E ao longo da vida, as migalhas acumuladas vão formando um "muito". 

Ter essa percepção faz com que eu agora olhe para trás e sinta um carinho especial pelas minhas pequenas grandes miudezas. Felizmente, embora envergonhada, tive a humildade de acolhê-las. Por inúmeras vezes, senti-me inferior ao perceber que muitas pessoas que conviviam comigo as ignoravam por completo. Com certeza, pensava eu, por sentirem que delas não precisavam. Arrogância de gente confiante. E eu ali, a recolher meus caquinhos. Uma verdadeira mendiga de emoções.

Mas a vida mostrou o contrário. Hoje, com certa tristeza, me dou conta de que muitas daquelas pessoas possuem um saco cheio de vazio. Já o meu, está cheio. De migalhas. De pequenices. De miudezas. É a minha caderneta de poupança de vida, que agora transborda de lembranças coloridas. São meu orgulho e a certeza de que valeu a pena recolhê-las e guardá-las com carinho.

Quer um conselho? Elas ainda abundam por aí. (Abundam... Palavra feia, né? Mas no momento ela é mais-que-perfeita!) Ainda há tempo de sair recolhendo-as. Elas são o nosso feijão com arroz de cada dia. O que nos fortalece para irmos à luta em busca do resto do pão. Se há migalhas, é porque, certamente, haverá um pão inteiro nas proximidades. Elas são pistas de que algo maior nos ronda e nos preparam para abocanhá-lo. 

Portanto, procure. Fuce. Vasculhe. Garimpe. E não deixe nada passar despercebido.Aprenda apenas a separar o que é reciclável do descartável.

Boas migalhas pra você!