quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A Urca se despede de mim


A Urca se despede de mim
Silvia Britto

Estou com o coração apertado.
Em poucos dias estarei deixando a linda Urca, lugar a que chamei de lar pelos últimos dez anos de minha vida. Infelizmente, não mais fui capaz de manter a vida no Paraíso.
Resolvi sair para um passeio de despedida. A tarde estava nublada, para combinar com o estado da minha alma.
Passei primeiro pela pracinha, onde por inúmeras vezes vi meu bebê brincar e onde comemoramos seu sétimo aniversário. Foi um luxo, aquela festa. Chamou-se "Pintando o sete na Urca" e durou 24 horas! Com direito a jantar, dormida, café e almoço. Obviamente, também incluído um passeio à pracinha querida.
De lá, segui até a Praia do Forte, frequentada apenas por aqueles que conseguiram o famoso passe, por conhecer algum militar. E aí vocês me perguntam: e você conhece militares? Não! Mas caí nas graças do Sargento Cândido, que me abonou a entrada e logo em seguida soube que também haveria uma filha e um marido. Boa praça, o Sargento.
Ao lado, a mureta do Bar Urca, pouco ligando se trata-se de uma segunda ou de uma sexta-feira. Sempre lotada de gente de todas as tribos, degustando seus pastéis e a cerveja gelada de um dos bares mais populares do Rio de Janeiro.
Mais à frente, o Garota da Urca. Ali passei inúmeras madrugadas da vida, tomando chope para tentar aquecer meu coração solitário em algumas noites tristes de verão. Andando um pouco mais, passando da antiga Tupi e do famoso Cassino,o Belmonte, bar recente na área mas nem por isso menos frequentado.
Dei a volta pela rua de dentro, Marechal Cantuária, e retornei pela orla. Passei da igrejinha de Nossa Senhora do Brasil e, automaticamente, comecei a olhar para cima, na esperança vã de ver o meu rei, Roberto Carlos, na janela de sua cobertura. Em dez anos de Urca, nunca tive o prazer de cruzar com o olhar do rei. Coisa rara para os moradores daqui. Mas essa sou eu. Uma pessoa rara e petulante.
Só que, dessa vez, a Urca também quis despedir-se de mim. Ao olhar para cima, lá estava ele, o rei Bebeto em pessoa, na sacada de sua varanda! Parei, encantada. Fiquei ali alguns segundos degustando aquele momento. De repente, o rei me encara. Sem saber o que fazer, ergui o braço e esbocei um trêmulo aceno. Ele acenou de volta e sorriu. Quase morri, sem querer respirar para não perder o momento. Mas a força da vida me salvou mais uma vez e me fez seguir adiante, com o coração agora completo de tudo que eu poderia desejar da Urca.
Quase chegando de volta a minha casa, começou a chuva prometida. E foi o que faltava para completar o meu passeio de despedida. A chuva uniu-se às minhas lágrimas, como se a limpá-las de meu rosto. Eu não estava de vestido branco, era azul, mas mesmo assim, lembrei-me da música do Jorge, quando ele ainda era só Ben, e fui para o meio da rua, a girar, que maravilha, a girar!
Segui cantando o resto do caminho com a certeza que me faltava: vou sair da Urca, mas a Urca nunca sairá de mim. E bola pra frente que a vida não para e o futuro pede passagem!

domingo, 27 de outubro de 2013

Meu pequeno grande amor

Meu pequeno grande amor
Silvia Britto

Meu pequeno grande amor hoje se foi. Era muito mais que um amor. Era um amigo, um filho de coração, um cúmplice. Meu querido Toyzinho.
Seu coração cresceu demais e a demanda foi grande para o pequeno pulmão. Era um coração enorme, muito amor, em um corpo miúdo que não cansei de abraçar, afagar e aninhar. Vou ficar com saudades de suas lambidas. De seu latido possessivo quando qualquer um de mim se aproximasse. De sua alegria quando pressentia minha chegada e de sua frustração ao deduzir minha partida.
Eu não sabia que doía tanto. Acho que nunca perdi um amor assim antes, que me foi dado de graça, sem nada me cobrar ou de mim esperar. E nosso amor foi instantâneo, desde o primeiro momento que fui trazida até ele. Nos apossamos um do outro e criamos um elo que ninguém mais entendia a não ser nós dois. Quantas lágrimas ele lambeu-me da face. Quantas lambidas deu-me no corpo. Quanto amor a mim dedicou. Totalmente incondicional. Nem era eu a responsável direta pelo seu sustento. Mas sei que ele também sentia minha paixão absoluta.
Hoje, ele passa a ser apenas uma lembrança. Uma dessas que nunca mais serão esquecidas. Toy será eterno enquanto dele se tiver lembrança.
Não consigo parar de chorar. Meu coração está destruído, desnorteado sem a tua presença, meu grande pequeno amor. Se você puder me ouvir, de onde estiver, lamba este coração que não quer desapertar. Brinde-me com suas melhores lembranças. Tatue minha recordação com seu latido querido.
Toy, amo você para sempre. Muito obrigada por fazer-me sentir tão especial.
Beijo, Totoyzinho. E descanse em paz, meu pequeno grande amor.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Luto pela luta


Luto pela luta
Silvia Britto

Luto pela luta de mais um ano que não deu em lugar algum.
Luto pelos sonhos de uma imensa e linda torcida, muito honrada e guerreira, que nunca abandona a luta.
Pior é que não há a quem culpar. A arbitragem foi bem. O técnico tem história e tradição. A torcida, linda, estava lá, apesar dos pesares, danto todo o seu suporte. O grande problema é que não adianta acreditar se quem nos representa em campo duvida.
A sensação é de morte de um grande amor. Ou de descoberta de mais uma traição "imperdoável". Há dor. Há choro. Juramos "nunca mais". Mas, por fim, acabamos perdoando o grande amor de nossas vidas, aquele com que o destino nos presenteou.
Eu, particularmente, cheguei a um ponto em que nem mais juro "nunca mais". Sou uma mulher de malandro típica e assumida. Coração pesado, peito apertado. Mas doida para receber mais um pequeno carinho que seja, uma pequena vitória, para reaquecer meu coração. Quantas vidas teremos nesse amor? Acho que infinitas. Ou quantas forem necessárias.
Vontade de colocar a grande e linda torcida Alvinegra no colo e dizer: "Vai passar!". Mas não sei mentir. Não passará. Melhor mesmo é acostumar e aprender que, pelo Glorioso, só pode torcer quem sabe amar incondicionalmente. Por isso somos escolhidos.
O amor nunca irá acabar-se. Se acabar, não era amor.
E assim continuamos, na luta, de luto.
Saudações Alvinegras.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

"Se"

Estava estudando e, para não chorar de raiva e frustração, resolvi escrever...


"SE"
Silvia Britto
                                  

Não aguento mais essa insuportável partícula "SE"!!!
É "SE" apassivador. É "SE" índice de indeterminação do sujeito. É "SE" reflexivo.
É "SE" recíproco... Sem falar do "SE" condicional.

Quando penso que estou apassivando, estou indeterminando.
Quando penso que estou indeterminando, estou apassivando.

Haja paciência!!

Quando vejo, na questão, o danado do "SE" despontando, como se rindo da minha cara apavorada,
já me dá uma vontade enorme de chutar qualquer das opções. Ou de marcar a resposta que acho ser errada.
Por ironia da Gramática, a errada para mim é sempre a certa para a banca!

Como é possível tremer ante duas letrinhas que parecem tão insignificantes?
É que, na verdade, as danadas são poderosas.
Já parou para pensar?
O certo fica incerto.
O ativo torna-se passivo.
E a pobre da pessoa perde a sua exata definição só pela sua presença na oração!

Argh!!! Que irritação!!!

Confesso não saber mais o que fazer com essa partícula danada.
Como aprendê-la?
Como apreendê-la?
Não foi por falta de explicações.
Tanto já perguntei a bons mestres...
Tantas dúvidas já me foram esclarecidas por professores dedicados...

Acho que é um defeito de fabricação do meu cérebro.
Nasci com a capacidade de entendimento do "SE" avariada.
Será que é por isso que não tenho paciência quando me impõem condições?!?!

Pelo menos "SE"...
Precisa-"SE" de...
Conserta-"SE" isto ou aquilo...
Abraçam-"SE"...
Amam-"SE"...
Matam-"SE"...
Arranca-"SE" cabelo!!!

Quer saber? Eu me rendo!
VIVA O CHUTE!!!
Danem-"SE" os examinadores!!!!!!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A madrugada chorou


A madrugada chorou
Silvia Britto

A madrugada chorou
Chorou o choro dos amores mal correspondidos.
Dos desejos não saciados.
Das crianças mal alimentadas

Chorou um choro doído.
Em que nada parece fazer sentido.
Em que tudo é apenas um grande vazio.
Em que a vida é tão somente uma grande ilusão.

E enquanto a noite chorava, nós, mortais, apenas observávamos.
Impotentes em nossa insignificância.
Seres indefesos, à mercê do destino implacável.
Pequenos corações, clamando por piedade.

Mas a chuva passa.
Tudo passa.
Só não passa esse choro da vida.

Choro danado, madrugada molhada.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Anjos do Saber

Anjos do Saber
Silvia Britto

Queridos mestres,

Esta vossa aluna, vez por outra, tem delírios de escritora.
Portanto, resolvi escrever-lhes pelo Dia dos Professores.

Gostaria de mandar uma mensagem a todos os professores maravilhosos que já passaram pela minha vida. Infelizmente, muitos se perderam, como pó de giz, ao longo dos anos.
Felizmente, muitos ainda estão presentes. Vocês são alguns deles. Que bom. Através de vocês vou poder exteriorizar um pouco a minha gratidão e admiração por essa profissão tão mágica. Preferi submetê-los a meus garranchos literários a simplesmente mandar um cartão qualquer. Peço-lhes perdão pela audácia, mas esse é um dos meus temperos preferidos da vida. Espero conseguir fazer com que leiam com seus corações, perdoando meus devaneios literários e minha ousadia.

Quando ainda muito pequenina, ao ser perguntada o que gostaria de ser quando crescesse, respondia, sem sombra de dúvidas:

- Miss Maranhão e professora!. 

Quis o destino que eu não realizasse nenhuma das minhas vocações. 
A primeira por pura injustiça e a segunda, por falta de oportunidade ou vocação.
Coisa mais linda e generosa ensinar! 
Nada mais engrandecedor do que dividir o saber. 
Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
De quebra, ainda ajudam a realizar sonhos!


Ser-lhes-ei eternamente grata por toda a dedicação e carinho a mim dispendados.
Parabéns a todo esse meu exército de Anjos do Saber e que a vida saiba retribuir-lhes por todo esse amor, já que nossos governantes não parecem haver aprendido muito bem essa lição.
Beijo enorme em seus corações.

Feliz Dia do Mestre!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Zé Turé





Zé Turé
Silvia Britto

Zé Turé era mais um dos milhares de afilhados de minha vó Dedé.
Antes de continuar a falar de Zé Turé, preciso deixar uma coisa bem clara para que os desavisados não continuem a ler. Não sou, e nem pretendo ser, esse tal de “politicamente correto”, que anda tão em voga. Prefiro ser a velha e brega “emocionalmente amorosa”. Portanto, não esperem de mim termos como “afrodescendente”, “adiposamente favorecidos” e afins. Prefiro dizer “negona gorda”, pois sei que, em meu coração, essa negona é tão amada e respeitada quanto a “branquela magrela”, sacaram?
Esclarecimento feito, voltemos ao Zé Turé. Mais um dos milhares afilhados de minha Vó Dedé espalhados por São Luis. Neguinho preto tiziu como dizem por aqui. Apaixonado por Dona Dedé, sempre aparecia por volta da hora do almoço para saber em que poderia ajudar a “dinda”. Quase sempre cabia-lhe a função de ir  à venda comprar as duas cervejas diárias que Dedé religiosamente tomava desde sua mocidade.
Certo dia, lembro ainda como se fosse hoje, estava eu, sentada na sala assistindo a desenhos animados na TV, esperando o resultado do cheiro maravilhoso que vinha da cozinha concretizar-se. Como se fosse mágica, “puft”, o som e a imagem da TV escafederam-se. Gritei desolada. A primeira a acudir-me foi Gracinha, outra das milhares de afilhadas de Dedé. Ao ver a razão de minha decepção, gritou, aflita: “D. Dedé! Acuda! A “bicha” está sem voz e sem feição!”.

Zé Turé aparece correndo, logo em seguida, numa tentativa de sanar a minha grande decepção. Olha para a TV com seus olhos pretos qual jabuticabas, coça um pouco a cabeça, põe a mão no queixo, vira a cabeça para um lado e para o outro, faz cara de sabido e solta seu ilustre diagnóstico: “VIXI!”. Sai logo em seguida em direção à venda para buscar o refresco de malte da Vó, deixando-nos todos a gargalhar até a alma não aguentar mais. Exatamente como faço agora!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Os enrolados

Os enrolados
Silvia Britto

Já percebi que, invariavelmente, todos os meus amigos da faixa etária dos 45 aos 65 anos de idade, que já foram casados e separaram-se, quando perguntados sobre seu estado civil, levam alguns segundos para responder. Costumo perguntar se são casados, solteiros, namorados, noivos, amancebados ou tico-tico no fubá e eles ficam sempre na dúvida.
A resposta mais comum parece ser: ENROLADOS!
Também eu me incluo nessa turma. Como uma boa mulher moderna, também estou "enrolada". Não sei se estou namorando, "ficando", "pegando" ou "enrolando" meu "enrolado".
E isso é bom ou ruim? Não sei! Como tudo na vida tem seus prós e contras. Obviamente que adoro ser livre, não pertencer a ninguém e só ficar junto por estar realmente com vontade. No entanto, há um lado romântico meu, que quer fazer planos de futuro, dizer que tal pessoa é meu namorado, tirar fotos em lugares idílicos e românticos e perpetuar esses momentos de felicidade a dois.
Os "rolos" não parecem ter passado nem futuro. Muito mal carregam um presente. Sou mais pela liberdade do corpo e cumplicidade da alma. Meio hippie mesmo. Mas o que vejo por aí é exatamente o contrário: prisão de corpos acomodados e preguiçosos e traição de almas.
Com esse papo de redes sociais, as pessoas têm quantos "rolos" e "enrolados" quiserem. Por muitas vezes o rolo é tanto que se perde o fio do novelo. Claro que os rolos podem acabar por desenrolar-se, para bem ou para mal. Mas, geralmente, causam um tremendo desgaste às mentes dos envolvidos.
Sei não. Acho que não gosto disso. Enquanto estamos no meio desse emaranhado sem fim, a vida parece passar ao largo, como a rir-se de nós, piões humanos, que não sabemos de onde viemos ou para onde vamos com nossas relações emocionais. E isso cansa demais.
Você está todo enrolado? Pois é... Eu também!

sábado, 5 de outubro de 2013

A sedução do riso

A sedução do riso
Silvia Britto

Sonhei que o Marcelo Adnet estava me dando a maior bola.
Acordei e pensei: por que temos que acordar? Estava tão bom!
Passada um pouco a frustração de ter que deixar um de meus grandes ídolos, ainda mais botafoguense, coloquei-me a pensar por qual razão sonhara com ele. Engraçado como sempre queremos achar explicações para os sonhos. Se nem os próprios especialistas no assunto chegam a uma conclusão satisfatoria, por que nós, meros sonhadores, chegaríamos? Pois bem. Cheguei a uma conclusão que se encaixava lindamente ao meu delicioso sonho.
Fazer rir é metade do caminho andado para o meu coração moleque e palhaço. Não só para o meu. Conversando com amigos e amigas, vi que isso é quase universal. Nada melhor do que uma boa risada para abrir as defesas da alma e deixar a felicidade entrar. E o Adnet consegue isso facilmente comigo. No entanto, no sonho, era ele que se acabava de rir com minhas sandices.
Na madrugada anterior, ficara de papo até altas horas com um amigo muito querido, que queixava-se de dores da paixão. Disse-me que era o palhaço da turma mas era um bobo quando se apaixonava. Mostrou-me uma mensagem que mandara para uma grande paixão platônica que trazia consigo pelos últimos cinco anos.
A tal mensagem parecia haver sido escrita por um menino de uns onze anos, tal a falta de autoestima nela contida. Engraçado como homens viram crianças bobas quando se apaixonam! Como não tenho trava na língua, disse-lhe tudo que eu pensava a respeito. Que ele sofria de baixa autoestima e que esse era o pior caminho para o coração de uma mulher. Que, na verdade, o que ele fazia era fugir do amor ao comportar-se de forma tão infantil. Que ele era uma delícia de pessoa mas não sabia do próprio poder de sedução e da arma fatal que possuía.
Nesse ponto da conversa, ele ficou surpreso e perguntou qual seria a tal arma. O HUMOR, meu amigo! O humor é um dos dons que abrem mais portas que eu conheço. Inclusive as do coração! Confie no seu taco. Você é inteligente, generoso, amigo e, acima de tudo, tem um humor fora de série! Faça-as rir, confie em si mesmo e depois é só correr para o abraço!
O riso torna tudo mais leve e possível. Tem uma conotação erótica irresistível quando sabiamente compartilhado. O riso é a menor distância entre duas pessoas. Portanto, amigo querido, ria e faça sorrir. Não desperdice esse seu maravilhoso dom para ser apenas o palhaço que faz rir para depois chorar escondido. Ria de si mesmo! Isso sempre torna tudo mais leve.
Apenas mais um pequeno conselho, se quiser ouvir esta louca que lhe escreve. Não tente planejar o amor. Ele não é planejável. Planejar um amor, com filhos, casa, cachorro, carro do ano, é quase tão inviável quanto querer ganhar na loteria. A diferença é que o amor é possível. Basta deixá-lo chegar de mansinho, do jeitinho que ele gosta. Relaxe. Pare de procurar que ele chegará até você. Enquanto isso ria, sorria, gargalhe e contagie a todos com esse seu jeito moleque e irreverente. Você é uma delícia de pessoa.
Para terminar, uma das frases de que eu mais gosto desse lindo e grande palhaço que nós tivemos e ainda temos:

Um dia sem rir é um dia desperdiçado.
Charles Chaplin

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A síndrome do coração bandido



A síndrome do coração bandido
Silvia Britto

Estava aqui lembrando da letra de uma música muito antiga mas sempre muito atual, gravada por meu queridíssimo Waldick Soriano:

Quem eu quero não me quer
Quem me quer mandei embora...
...Por onde anda quem me quer
Quem não me quer onde andarás...
...Não sou capaz de ser feliz
No braço de um amor qualquer
Ah! Se uma fosse a outra...

E essa é a eterna síndrome do coração bandido.
Só para maltratar um pouquinho mais, quando esquecemos o “Quem não me quer”, ele ressurge das cinzas, como que a debochar no nosso já doído coração. Brinca de novo, sapateia e mais uma vez vai embora. A essa altura, já mandamos um outro “Me quer” embora.
E assim vai passando a vida, cheia de encontros e desencontros. Sempre buscando o momento mágico em que dois “Me quer” apaixonam-se loucamente.
Mas o coração bandido é forte, o danado! Coração safado, não cansas de trair-me.
É dolorido esperar por alguém. Talvez tanto quanto ter que esquecer alguém. Mas pior mesmo é quando não se sabe se deve-se esquecer ou esperar. Muito frustrante esperar por algo que achamos nunca irá acontecer. Mas é ainda mais frustrante desistir, quando esse algo é tudo que mais queremos na vida.
Não é fácil dar um lugar de verdade a alguém em nosso coração. Pior ainda quando esse alguém não percebe o valor desse espaço e o usa com descaso, falta de carinho e verdades mentirosas.
E quando temos alguém no coração que não podemos ter nos braços? Ou quando o temos nos braços apenas em matéria enquanto a alma divaga perdida e foje ao primeiro sinal de que poderia verdadeiramente entregar-se? Adoraria não cair de amores por alguém que não esta lá para me segurar. Mas sou uma besta mesmo. Sempre caindo onde não devo.
Um dia ainda dou um jeito em você, coração danado! 
Ou então morro de tanto amar. 

Pérolas literárias




Pérolas literárias
Silvia Britto

Como já revelei algumas vezes, sou amante inveterada da nossa querida Língua Portuguesa. Junte-se a isso minha também já conhecida falta de noção e petulância e o resultado é que acabo ficando amiga, invariavelmente, de meus professores de Português que, coitados, acabam tendo que engolir meus rabiscos literários.
Pois bem, outro dia, estava eu, triste e soturna, indo de ônibus de algum lugar para lugar algum, quando recebo um torpedo do melhor de todos os meus queridos mestres, pois esse teve a coragem de tornar-se um amigo muito especial e foi um dos responsáveis por eu estar aqui agora, escrevendo essas asneira... essas maravilhas que vos encantam. A mensagem dizia mais ou menos assim:

- Acabei de ler em uma redação que  “nós devemos respeitar o GARI NEGRO HOMOSSEXUAL E MUDO QUE MORA EM UMA COMUNIDADE”.  Meu questionamento é:  quem é mais infeliz?

a) O gari, mudo, preto, gay e favelado?
b) O aluno que escreveu essa redação?
c) O professor que corrige uma coisa dessa?

Pois eu não tive dúvidas e mandei-lhe a resposta na lata:

- Com certeza é a letra “c”! O pobre do professor! Analisando as respostas anteriores:

a) O gari, pelo menos tem emprego e casa;
b) O aluno anta nem percebe sua santa ignorância e deve achar que merece um ponto a mais por ser um maravilhoso ser, de enorme coração, protetor dos “frascos e comprimidos”;
c) O professor! Tadinho! Além de ter que sofrer para explicar por que tirou pontos do santo jumentinho, ainda ganha mal pra caramba!

Resposta: letra “c” na cabeça! Com direito a muito vinagre para neutralizar o gás de pimenta!

Ah, se todas as questões da vida fossem tão fáceis de responder como essa!
Mande outra, “fessor”!

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

E ninguém cala esse MEU amor!

E ninguém cala esse MEU amor!
Silvia Britto

Chegou a hora daquele momento inevitável, na história de qualquer time de futebol, em que qualquer torcida se divide. Todos continuam amando profundamente o time, pois isso é uma loucura que há muito deixei de tentar entender. É um amor louco nascido não sei de onde e que levamos até o último suspiro. Porém, a maneira de amar diverge em certos momentos, quando os jogadores começam a não render como deveriam dentro de campo.
De um lado estão os "com vergonha na cara", que se negam a ir aos estádios e dar seu suporte incondicional a uma equipe que se nega a brilhar. Do outro lado, estão os "sem vergonha na cara", que apanham, sofrem bullying das outras torcidas, mas pouco se abalam em sua maneira de amar e apoiar a bandeira.
Esses continuam vestindo a camisa e vão ao estádio chorar pessoalmente com os outros loucos e sem-vergonhas que ali estarão. Eu sou desse segundo grupo. Mulher de malandro. Apanho mas não deixo de amar.
Em meus amores da vida, isso não é bem assim. Apanho, posso até continuar a amar mas meu comportamento muda. Mas com o Glorioso... Ahhhh, o Glorioso!! Esse me mata, me bate, me maltrata e meu comportamento e amor continuam inabaláveis! Total falta de autoestima quando se trata desse amor bandido à essa linda estrela.
Portanto, chegou a hora de mudar a letra da minha música preferida em apoio ao meu grande amor:

E ninguém cala
Esse MEU amor!
E é por isso
Que eu canto assim
É por ti Fogo!

Fogoôôô
Fogoôôô
Fogoôôô
Fogoôôô
Fogoôôô

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Burra mas bonitinha

Burra mas bonitinha
Silvia Britto

Eu poderia vir aqui e dizer que sou ingênua por opção. Que prefiro sempre acreditar no outro por achar que todos merecem um crédito. Que ingenuidade não é sinal de burrice. Que burro é quem tenta me subestimar pois, nesse caso, apenas se privará de uma pessoa com um coração enorme e que, felizmente, aprendeu o que é o amor. Mas esse blá blá blá vocês já estão cansados de saber e nada poderia ser mais jururu para começar o mês de outubro do que essas eternas reclamações.
Por isso, resolvi fazer uma das coisas que mais gosto que é rir. E rir de si mesmo é o primeiro passo para a cura. Já disse antes que mentiras sinceras me interessam. Porém, verdades mentirosas levarão de mim apenas um belo e bem dado coice na bunda. Mintam bastante, please! Mas com sinceridade! Não me venham com verdades de 'pernas curtas".
Já falei para vocês da metáfora do vidro? Por muito tempo em minha vida, assistia ao mundo por detrás de um vidro grosso e seguro. Não me expunha e, com isso, ganhava em segurança e perdia em prazer. Parecia-me que o mundo do outro lado era só para alguns poucos sortudos. Um dia, me emputeci de verdade de só a tudo assistir e quebrei o danado do vidro, que estilhaçou-se sem possibilidade de conserto. Mas não entrei crua nesse novo mundo de cores vivas e gostos amargos. Enquanto espiava, observava cada movimento que as pessoas do outro lado faziam e aprendi muito sobre a natureza humana. Em sua maioria, as pessoas não passam de um monte de crianças perdidas achando que são adultas.
Uma das grandes verdade que trouxe dessas observações é que não se pode ajudar ninguém que não queira ser ajudado. Não se quebra o vidro de alguém que prefira viver na solidão. Eu tento, cutuco, instigo, estendo a mão mas não tenho o poder de tirar ninguém da areia movediça que buscam pisar com os próprios pés.
Enquanto isso, eu sigo com minha burrice alegre e descomprometida com mentira e hipocrisia. Acho até que sou uma burrinha bem apessoada e bonitinha. Adoro um bom pasto, uma aguinha bebida diretamente de um rio encontrado pela estrada. Divirto-me tentando caçar borboletas e sempre caio de fuça no chão ao julgá-las inofensivas. Sabiam que, de suas asas, as borboletas exalam um pó que pode irritar os olhos de quem as tocam? Nada é totalmente inofensivo nesta vida. Mas isso só se aprende vivendo.
Só não me tirem a liberdade de viver na transparência. Só não tentem manipular-me para tirar de mim meu orgulho e abalar minha autoestima. Se tentarem, sentirão a força do meu coice, que nada mais é do que a minha eterna alegria. Algo irrita mais aos mau amados do que a alegria de quem sabe amar? E, cá pra nós, sou até uma burrinha muito bonitinha, hein? O que vocês acham?
Despeço-me pedindo licença a Quintana, outro burro incorrigível, para cita-lo.

Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste por que vocês são burros e feios
E não morrem nunca...
Mario Quintana
Agora com licença que vou ali pastar!
IIIIIIIIHH ONNNNNNN!!!!!!!!!!!!!!!