quarta-feira, 29 de maio de 2013

Ter noção?


Ter noção?

 Silvia Britto

O que é ter noção?
É tomar CHICABOM e não ficar toda lambuzada?
É levar um caldo da onda e não sair com areia até no sizo superior esquerdo?
É achar que o futebol é o ópio do povo?
É não poder dizer bom dia ao dia, ao sol e às flores?
É não poder ler de cabeça pra baixo?
É não poder fazer sanduíche de melancia?
É honrar seus compromissos e a verdade, doa a quem doer?
Se é, não não...
Quero não...
Ter noção.

E NÃO ter noção?
É dizer "te amo" quando o coração mandar?
É poder beijar de língua através do pensamento?
É fazer amor despudoradamente?
É começar a rir sozinha no meio da rua sem ter que dar explicações?
É torcer para o Botafogo?
É parecer ridícula por ser feliz?
É amar quem se quer, do jeito que se quer, e ficar feliz apenas com isso?
Se é, sim sim...
Quero sim...
Ser assim.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Conjugação de frase

 Conjugação de frase

Silvia Britto

Tenho um amigo muito querido que conhece muito bem a nossa linda língua.

É dominador absoluto de frases e orações.

Resolvi me mostrar, mostrando como estou craque em análise sintática e interpretação de texto, e enviei-lhe a seguinte frase, conjugada:

 



Ele me respondeu o seguinte:

 

“Conjugação de frase??? "Você" é sujeito??? De que verbo???
Como assim? Aprendeu mesmo?

Tive que me defender!  Pedi ajuda aos deuses gramaticais e mandei:

“É meio que poesia, tipo assim, ironia, sacou?

Você é sujeito sim! E nesse caso muito mau! 

Nessa frase há 2 sujeitos pois o verbo AMAR, normalmente, pede 2 sujeitos.

Ninguém quer ser OBJETO do amor.Os dois sujeitos têm que realizar a ação pra dar samba.

Nesse caso o verbo é irregular, pois um sujeito ama mais que o outro.

A carga semântica é muito triste para o que sempre se fode e vazia para o que não se importa.

Vai dizer que você não sabia que frases podem ser conjugadas?

Conjugar quer dizer unir, juntar. Essa frase tá pedindo a conjugação com outra, para ter um final feliz.

Oração absoluta, pedindo para ter uma subordinada adversativa e uma conclusiva com relação a sua semântica real e triste. Parafraseando, com o novo sentido, ficaria assim:

Eu lhe amo e você pouco se importa PORÉM sei que você só tá fazendo doce PORQUE não vive sem mim.

Ou seja, o EU quer que o VOCÊ passe a se importar.

Isso é Português Pós-Moderno Interpretativo.

Sou uma expert no assunto.

Depois te dou um curso de atualização, formô?

Aprendi ou não aprendi??????????”

Ele teve que se render ao meu talento interpretativo...

E terminou sua mensagem enviando-me um beijo gramatical. Único! Absoluto.




quarta-feira, 22 de maio de 2013

Um abraço e um desabafo






Um abraço e um desabafo

Silvia Britto

Acabei de saber que hoje é o "Dia do Abraço". Nada mais apropriado para o que estou precisando hoje. Sentindo-me traída, manipulada e jogada em um canto pelos que não resistem à visão das pessoas que brilham sem querer roubar-lhes esse dom. As portas se fecham atrás de mim para que outras se abram e cada vez eu chegue mais perto do meu destino. Nada pior do que ter a minha inteligência subestimada. Sou ingênua por opção pois acho esse, o approach mais verdadeiro para a vida. Quem é assim, não pode ter medo de se arrebentar. E sigo em frente, encarando mentiras, desilusões, manipulações, traições e inveja da minha ousadia. Sei que incomodo, mas isso não é problema meu. Não posso morrer antes do tempo só para satisfazer pessoas que de nada se beneficiariam com isso. Fazem apenas pelo prazer de me ver murchar. Não tenho culpa de ser assim, corajosa e intensa nas minhas entregas. Se contagio, é consequência, nunca a minha meta. Pessoas fechadas ao amor sempre há de haver. Delas, tenho pena. Me machucaram mas não apagaram meu brilho. Portanto, àqueles que me entenderam e me têm em seus corações, o abraço mais apertado do mundo!!! Aos outros, só peço que, já que não conseguem ser felizes, apenas sentem e observem. Talvez assim vocês aprendam alguma coisa.

Despedida de um grande amor





Despedida de um grande amor


Silvia Britto

Fui acusada de manipuladora que se posta de vítima.
Esse é o caminho mais fácil de se desistir de uma grande paixão.
Ao rotular atitudes de quem luta pelo seu amor,
você escolheu o caminho da solidão.
A solidão é o caminho mais fácil dos que desistem de ser felizes.
Vai cobrar seu preço lá na frente, quando o orgulho ceder lugar ao óbvio.
Nenhum tormento é sem cabimento, senão, não incomodaria tanto.
Normalmente, pessoas felizes incomodam aos que se fecham para o amor.
Caímos na armadilha dos infelizes, dos parasitas.
Você  parece ter uma atração enorme por essa tal de "solidão".
Estar só, não é estar vazio e sim ficar estéril.
Sei que você é forte e vai abandonar esse caminho solitário.
Espero que você enxergue isso a tempo e não desista da sua felicidade.
Pense em você primeiro e tenha cuidado especial com as suas escolhas.
O passado teima em não querer largar do seu pé.
Arrependimento, é quando a solidão, a acomodação e a covardia cobram seu preço.
Pague sua conta e siga livre para fazer novas escolhas.
É sempre tempo de recomeçar.
Queria que fora diferente.
Queria não ter sido bloqueada de sua vida.
Queria que seguíssemos juntos, se não amantes, ao menos amigos.
Mais uma de suas escolhas fáceis a que rendo minha impotência.
Mas não se iluda, você estará sempre comigo.
Vou amá-lo pra sempre, pois meu amor, sempre é eterno.
Terminou mas não acabou.
Um beijo enorme.
Amo você.

Silvia Helena                                        Outono de 2013

terça-feira, 21 de maio de 2013

Fuck you very much

                                

                                  
Fuck you very much!

Silvia Britto

Perdoem meu vocabulário, mas há momentos na vida que nada melhor do que um bom palavrão para dizer o que a alma não quer calar.
Quem me conhece um pouco, sabe que sempre saio  de casa com meu melhor sorriso e com meus braços prontos para abraçar quem deles precisar. Acredito no amor, na amizade, no companheirismo e na cumplicidade entre pessoas que se amam.
Contudo, há pessoas que confundem entrega e confiança com ingenuidade e burrice. Odeio que me tenham por burra. Se a inteligência é algo a que  devamos agradecer, sou muito agradecida pela minha.
Apaixono-me facilmente. Deixo-me levar pela delícia que é ter um amor correspondido. Mas minha “facilidade” para por aí. Sou difícil de ser mantida por pessoas que não me merecem.  De uma forma ou de outra, a verdade sempre vem à tona, trazendo decepções e tristezas.
Ainda bem que sou assim. Não tenho medo de decepções. A vida sem elas seria como um mar sem peixes, estéril. Antes isso do que viver em tocas e esconderijos com o tamanho perfeito dos covardes que neles resolvem enterrar suas verdades.
Esbarrar com pessoas assim, é quase inevitável para pessoas como eu, que ainda precisam aprender  a melhorar o faro contra elas. Mas não as odeio. Elas me são muito úteis para que esse meu insuportável complexo de Madre Teresa de Calcutá ganhe as devidas proporções em minha vida.
Ainda sou muito movida por pena das pessoas. Pena dos que optaram por não se cuidarem e por viverem escondendo-se  e  fechando-se  para as coisas que realmente frutificam nesta curta viagem. Pena pelos que vestem a couraça do desamor e, qual carrapato, tentam sugar do meu pote de boa vontade e generosidade.
Mas aprendi, a duras penas (perdoem-me pelo trocadilho), que pena é outra palavra infértil. Não leva a lugar algum. Há muito aprendi a não ter mais pena de mim mesma. Resta agora aprender a não ter pena daqueles que brincam com meus sentimentos e minha inteligência. Quero somente agradecer à vida por colocá-los em meu caminho.
Aos que, assim como eu, jogam-se nesta trilha de coração aberto, sem sugar a boa vontade de outrem, peço desculpas por este texto. Aos outros, os que seguem subestimando a minha inteligência, não preciso desejar nada além do que eles já evocaram para si mesmos. Que continuem assim, solitários na infelicidade de suas artimanhas. Não fui eu que escolhi o vazio e infertilidade de suas vidas. Eles devem isso única e exclusivamente às suas opções covardes e mesquinhas.
Fuck you very much!


sexta-feira, 17 de maio de 2013

Uma mãe como todas as outras

                       

                            Uma mãe como todas as outras

Silvia Britto


Era miúda, magra, mestiça e caminhava como se o peso de 30 anos fossem um fardo gigante a ser carregado sobre os ombros.
Andava qual inseto, sem ser notada. Mas era assim que queria. De brilho, só os olhos tristes.
Mão solteira de filho único.O pai da criança, já abandonada no ventre infantil, depois de tirar-lhe a pureza e os sonhos, sumiu morro abaixo, negro do mundo. 
A família rejeitou-a. Culpava-lhe por ter acreditado no amor. Deveria, aos quatorze anos de idade, já conhecer as mazelas da vida. 
Pagou por crer na felicidade, por amar e por ser capaz de entregar-se à paixão.
De seu, apenas o filho, Percy(valdo), adolescente de lá seus 16 anos a quem criara com um trabalho duro.
Um trabalho que se encarregou de roubar-lhe os últimos traços do que restou de sua mocidade.
Dedicara-se a esse filho como se dependesse dele a sua razão de viver. 
Deu escola, meiguice e alimento para o corpo e para a alma. O filho era seu mundo.
Um dia, Percy aparece em casa com um amigo, de idade parecida, a quem pretendia ajudar com a Matemática.
Ficou tarde. O amigo poderia pernoitar até que o dia lhe desse segurança para voltar a sua casa?
Claro. Ela sabia dos perigos da noite escura.
Pelos meados da madrugada, pareceu-lhe escutar gemidos familiares vindos do quarto do filho. 
Pareceu-lhe  por um momento voltar no tempo, ao tempo em que ainda havia pureza em seu coração.
Pela fresta da porta, viu o filho a gemer de prazer enquanto recebia carinhos ousados do amigo.
Reagiu correndo a esconder-se embaixo das cobertas usadas, na cama doada pela patroa.
E chorou. Como há muito não chorava. 
Teve medo pelo preconceito que aguardava o filho. O mesmo que a desamparara anos atrás.
Chorou até ficar vazia, oca de sentimentos. Colocara-os todos para fora. Era hora de rearrumá-los.
O dia raiou, o amigo se foi, e com Percy, ela só ficou.
Olhou bem fundo nos olhos do filho e perguntou-lhe: "Você está feliz?"
Ele acabrunhou-se, abaixou os olhos antes de fitar os da mãe com toda coragem que possuía e respondeu entre corajoso e inocente: "Muito".
Era o que ela queria ouvir. E sorriu, riu, gargalhou como há muito também não fazia. Estava finalmente liberta.
O titubeio tímido do filho mostrou-lhe que nem tudo estava perdido. Havia esperança. Dessa vez seria diferente. 
Ele teria a chance que dela fora roubada, de seguir acreditando, de tentar ser feliz.
E orgulhou-se de si mesma. Não falhara. Enfim libertara-se do peso da culpa da paixão.
O filho e ela estavam livres para lutar juntos contra o preconceito dos que invejam os que ousam sonhar.



quinta-feira, 16 de maio de 2013

Inusitado

  
Inusitado
Silvia Britto

Escrevo este texto de um lugar muito inusitado.
Inusitado, como é a vida dos que não têm medo de fuçar os cantos da vida. Dos que não têm receio de cair na estrada.
Desta vez, a menina petulante cruzou as águas, atravessou o mar e subiu a ladeira em busca do êxtase.
E gozou... Duas, três, quatro vezes... Parou de contar.
Em seguida, alimentou-se da simplicidade da vida, com café-com-leite, pão e manteiga.
E dormiu abraçada ao seu destino.
Eu disse dormiu? Qual nada!
As frases e palavras e letras não a deixaram descansar até verem-se expostas neste texto.
Agora sim, menina... Descanse.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Patrimônio triste


Patrimônio triste

Silvia Britto

Acabei de chegar de duas semanas de férias em minha terra, São Luis, MA.
Confesso que voltei com vontade redobrada de mandar cortar o pasto da Roseana, pra ver se ela emagrece, e de combinar com a faxineira pra usar uma cera no chão daquelas poderosas, tipo quebra-chifre-de-corno, na mansão da clã bigoduda.
Estamos em último ou penúltimo lugar no IDH. Principais TV, jornal e rádio são da máfia bigoduda.Votos no interior valem 50 reais. Ruas esburacadas. Patrimônio histórico(????) depredado...
Para inglês ver, temos alguns metros quadrados no centro da cidade de São Luis, o Projeto Reviver. Algumas lojinhas de produtos locais, cachaças e parvos prédios azulejados. E está aí o que é necessário para manter o título de Patrimônio Histórico da Humanidade.
São Luis cresce sim. Mas às custas de empresários que constroem shoppings de fazer inveja aos do Rio e São Paulo, bares em torno da Lagoa e afins, tudo para justificar o passeio dos turistas à terra abandonada.
E o povo segue, se empanturrando de farinha d'água e Guaraná Jesus e dizendo amém, com os olhos fechados à crescente violência da antes tão pacata cidade.
Aí dizem que o povo é burro por não saber eleger. O povo é burro não! O povo é faminto, é carente, é ignorante. É impotente. E assim, a máfia corrupta prospera.
Melhor parar por aqui pra não vomitar...
Que fiquem apenas as boas lembranças da família querida e do gostinho dos saborosos caranguejos!

domingo, 12 de maio de 2013

Querida Mamãe



Querida Mamãe
Silvia Britto

Querida Mamãe,
Este é o primeiro Dia das Mães que passo sem ti.
Sei que todos os dias são nossos, mães da vida. Mas não posso deixar de lembrar de ti, com um carinho mais do que especial, em uma data em que todos abraçam e beijam aquela que lhes deu à luz.
Este sempre era um domingo de festa. Nunca faltava o teu vatapá, a tua torta de camarão e o teu beijo no meu pescoço, pois conseguias ser ainda menor do que eu! Sempre me agradecias também por ter te dado tua única neta, certeza viva de tua continuação.
Hoje vim “filar” um pouco do vatapá e da torta da Tia Lelete. Trouxe a Lilica comigo, como tenho certeza, seria a tua vontade. Estou longe da minha filhota querida, Juquinha, mas hoje, especialmente, não podia ser diferente. Precisava estar aqui, em minha, em nossa terra, para me sentir mais pertinho de ti. Foi aqui que me destes o milagre da vida.
Sei que um dia todas nós viraremos estrelas. Tu já és uma. Tens agora luz e lugar especial em meu coração e em minhas melhores lembranças. E eu, que não creio, acordei hoje lembrando da pequena reza que tentastes me ensinar ao longo de toda uma vida. Hoje ela virou um mantra. E peço a permissão “divina” para que possa acrescentar-lhe algumas poucas palavras:
“Com Deus me deito, com Deus me levanto. Na graça de Deus, do Divino Espírito Santo e de minha estrela mãe, Maria!”
A “bença” mãe. Descanse em paz, e Feliz Dia das Mães.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Revivendo a vida

Revivendo a vida
Silvia Britto
(re-editado)

Ser mãe é a oportunidade ímpar que a vida nos dá de revivê-la.
O minuto exato em que nos tornamos mãe confunde-se com o instante preciso em que nascemos de novo.
Ao som do primeiro choro e à primeira visão do nosso fruto, sentimos uma alegria imensurável. 
Com ela, atingimos a plena sensação de renascimento.
Normalmente não nos contemos ante tal emoção. Choramos.
Nesse momento, fundimo-nos àquela pequena criatura.
Tornamo-nos um só ser.
E a vida recomeça naquele momento mágico. 

Somos, mais uma vez, bebês.
Reaprendemos a enxergar o mundo através daqueles pequenos olhos.
Conseguimos adivinhar-lhes os desejos. 
Inferimos seus sentimentos e vontades pelo timbre de seus choros.
É fome. É sono. É dor. É dengo...
Cada sorriso nos faz sorrir junto e fazemos de tudo para que se repita.

De repente, estamos reaprendendo a falar. Falando errado com eles. Repetindo seus sons.
Rimos das coisas mais óbvias.  Das situações mais simples. Do pum do palhaço.
Redescobrimos o mundo e lembramos que o céu é azul. Que o fogo queima. Que o cachorro faz au-au.
Recomeçamos a freqüentar  festas coloridas, cheias de bolas e brigadeiros. 
Quando percebemos, estamos lá no meio do salão, dançando e pulando ao som de Ilariê.
Respondemos bem alto, com toda força de nossos pulmões, qual é o nosso time, quando o mágico pergunta.
Damos vida a animais de massinha, sentamos no chão, tomamos picolé, contamos histórias, corremos no parque.

E eles vão para a escola. 
Ficamos os dois com o coração apertado e inseguros.
Quando tiram notas boas, ficamos prosas. 
Quando brigam, queremos defendê-los.
Quando dizem que são lindos, ficamos orgulhosas.
É uma sensação extremamente narcísica. 
Tomamos os elogios como se fossem pessoais.
  
Daí eles crescem. E nós também! 
Chega a hora de nos encantarmos com a primeira paixão. 
De nos emocionarmos com o primeiro beijo. 
De chorarmos juntos com a primeira decepção amorosa.
Dos conselhos. Dos consolos. Dos avisos.
Dos  "eu te avisei". Dos "é porque é". Dos "tá de castigo".
Das brigas necessárias para a independência.
Da luta que travam para conquistar sua individualidade.
Castigos dados também nos machucam a alma.
Doem em nós. Apesar de eles não acreditarem!

E assim vamos, vida afora com a constante sensação de déjà-vu.

Até que, finalmente, eles nos deixam.
A sensação agora é de vazio. 
O mesmo que sentimos quando saímos de casa.
Só que dessa vez estamos do outro lado. 
O vazio agora não vem mais acompanhado de excitação.
Vem acompanhado de saudade.
É como se um pedaço nos fosse arrancado.
E, como lá no começo, novamente choramos. 

Entretanto, nunca mais estaremos sós. 
Ser mãe é para sempre.
Sei que a separação física acontecerá.
Ela já ganha forma.
Ainda tenho alguma estrada a percorrer antes que esse momento me chegue.
Prossigo acostumando-me com a idéia. A vida não para. 
Mas se tudo seguir seu curso, mais uma vez renascerei.
E com esse novo renascimento aprenderei uma nova e linda palavra: vovó!
E novamente chorarei.

terça-feira, 7 de maio de 2013

O último passeio

 Este texto escrevi por ocasião da perda de minha mãe, há coisa de menos de dois meses. Não poderia deixá-lo de fora do meu Tum plec tum plin, no mês das mães...

O último passeio


Silvia Britto

Mamãe,

Chegamos àquele momento da vida em que temos que seguir órfãs de mãe e de filha.
Lembro-me de quando pegavas-me pela mãozinha e levavas-me à casa da vovó.
De quando íamos juntas comer caranguejo e beber Guaraná Jesus no Olho D'Água.
Da areia, na praia, gritavas aflita: "Já para o raso, Silvia Helena! Moleca atrevida! Petulante!"
Recordo-me do teu consolo ao meu choro na vinda para a nova cidade, sem amigos e sem vovós.
Do dia da matrícula na escola grande do Rio de janeiro. Disseste: "Com o pé direito, Silvinha!".
E é como ainda entro em todos os lugares que me são importantes.
Passeamos por todas as butiques do Centro. Por todos os supermercados da vida.
Contigo, aprendi a fazer um vatapá com torta de camarão de dar inveja às baianas.
Quantos modelitos exclusivos, imaginados por mim, não tornastes reais em tua Singer!
Adoravas dançar e festejar! Eu, quietinha, só assistia. Hoje sou essa pipoca impossível!
Nossa casa cheirava a comida boa e tinha ao fundo o som de Nelson Gonçalves.
Mas é chegada a hora do nosso derradeiro passeio. Tu escolheste o destino.
Eu, que não creio, fui levada pela tua mão à Igrejinha da Urca para ouvir a Ave Maria de Schubert.
Ave Maria. Maria. Esse era teu nome. Mãe das mães.
A música tocou. Eu chorei. E cínica, ainda consegui esboçar um último deboche ao manto de Nossa Senhora, com o qual insistias em cobrir-me. Disse que precisavas lavá-lo de tanto que o usavas. Mas, no fundo, acolhia-me embaixo de seu calor protetor. E ali adormecia, tranquila e vigiada pelo teu zelo.
A missa acabou. É hora de largarmos as mãos. Daqui sigo só, mãe.
Obrigada por teres me dado à luz e a confiança de que morrerias por mim.
Continuarás viva no verde dos teus, também meus, olhos.
O mundo perde mais uma Maria e eu, uma mãe.
Segue em paz, minha estrela. Segue em paz mamãe.
Amém.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Botafogo - História de uma paixão

              Botafogo - História de uma paixão 

Silvia Britto 

Pediram-me que escrevesse sobre minha paixão pelo Botafogo. Fiquei tensa! Como usar palavras e fazer jus a um sentimento que está encravado dentro do peito? Ser Botafogo é orgânico, faz parte de mim desde que me entendo por gente e ainda não sabia dar nome a esse sentimento.

Cresci numa família de flamenguistas roxos. Lembro-me de que, quando pequena, ouvia gritos e desabafos sobre esse tal de Flamengo ecoando pela casa como se fosse começar uma guerra. Tinha medo! Sou de paz! Acredito na guerra feita pelas paixões, pelas ideias. De alguma forma não sentia que fazia parte daquele clã roxo.

Mas um dia entendi tudo.

Era uma vez uma Copa do Mundo, ano 1974, Alemanha. A balbúrdia pelas ruas era contagiante, todos esperando por um tal de "Tetra". Jogo da seleção, com uma breve apresentação dos jogadores. Eis que me aparece uma figura loira, fazendo maravilhas com a bola e vestindo uma camisa linda e imponente. Quando deram um close no emblema do time, quase perdi a respiração! Uma estrela linda e branca reinava absoluta dentro do emblema. Foi fulminante. A partir daí, só tinha olhos para aquele jogador lindo (acreditem-me os mais novos, pior que o Neymar chupando limão!), Marinho Chagas.

Então entendi o nome do sentimento que carregava no peito: BOTAFOGO!
É muito mais que um sentimento, é fisiológico. Foi a primeira vez que experimentei aquilo na vida. E entreguei-me. Paixão que acaricia, que bate, que irrita, que dá vontade de gritar pela janela, que faz com que a vida seja linda também em preto e branco. O nome disso é BOTAFOGO!

E a estrela virou bandeira, que virou camisa, que virou time de futebol de botão e que, até hoje, faz meu coração disparar quando escuto o apito do juiz iniciando a partida.

Quando me perguntam meu nome, respondo: "Silvia Helena, sou Botafogo!"

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Vó Dedé


                                Vó Dedé

Silvia Britto

Como estar em São Luis e impedir que a infância me invada o coração, cheia de lembranças de pessoas inesquecíveis e queridas? Vó Dedé é um dos personagens mais marcantes e inesquecíveis que já cruzaram o meu caminho.
Nascida Edeltrudes Aranha, casa-se muito nova com Edmar Britto. Logo lhes nasce o primeiro filho, meu pai, a quem foi dada a honra de receber o resultado do enlace dos nomes do jovem casal: Edelmar! Como reclamava o coitado! Por haver nascido no dia 26 de dezembro, também mereceu um nome para lá de significativo, tendo como resultado final: Edelmar de Jesus Britto. Debochava muito do próprio nome, mas não reclamou ao ver perpetuada a sina com a homenagem feita por minha mãe ao seu filho mais novo: Edelmar de Jesus Britto... JR!
Dedé era uma pessoa expansiva, carismática, que teria tranquilamente chegado à prefeitura da cidade caso tivesse pretensões políticas. Preferiu seguir a vida como a matriarca de uma “ninhada” de 7 filhos e algumas pencas de afilhados.
Quando jovem, era hipocondríaca. Ia ao médico com frequência, sempre queixando-se de doenças de difícil diagnóstico. Em uma dessas visitas, como se inspirado por uma luz divina, o pobre doutor receitou aquela que seria a cura para todos os males de Dedé até o fim de seus dias: duas garrafas de cerveja diariamente!
Encantada pelos efeitos relaxantes do “refresco de malte”, Dedé sossegou. Nunca mais ficou doente mas fazia questão de encontrar algum grau de parentesco com todos os médicos que lhe cruzavam o caminho: “Dr Roberto Viana? Você não seria o Betinho, filho de Rosinha Aranha, prima de terceiro grau de meu pai, lá de Viana?”
E assim passava seus dias depois de “aposentada” das funções de dona de casa. Folheava a lista telefônica em busca de parentes perdidos e desaparecidos. A primeira coisa que perguntava quando apresentada a alguém era: “Fulano de Quê?”. E começava a esmiuçar o parentesco da pobre criatura.
Em um dos últimos contatos que tive com ela, lembro-me de perguntar-lhe se estava tudo bem. A resposta foi: “Não, minha filha... Agora vou morrer... Tiraram-me as cervejas!”. E realmente foi-se, a esmiuçar o parentesco dos anjos, um pouco depois desse encontro, aos 93 anos de idade. Bença, Vó Dedé!